quinta-feira, 21 de abril de 2016

“Bela, recatada e do lar” – uma breve análise da corrosão dos valores

“Bela, recatada e do lar” – uma breve análise da corrosão dos valores



No dia 18 de abril de 2016, a revista Veja fez uma reportagem sobre Marcela Temer. Ela é esposa do ainda vice-presidente Michel Temer. Marcela, que é 43 anos mais nova que Michel, foi retratada como uma bela mulher que já concorreu em concursos de beleza e que é formada em direito.

A reportagem retrata uma jovem recatada que é auxiliada por sua mãe. Ela é uma pessoa reservada e “do lar”. Concentra-se em cuidar do seu filho e é discreta e educada. O final da revista diz que “Michel Temer é um homem de sorte”.

Bom, o que há de tão importante nessa matéria? A reportagem gerou polêmica nas redes sociais; chacota de alguns jornalistas. Alguns falaram que foi uma matéria com a clara intenção de elogiar o vice-presidente. Contudo, o que mais foi criticado é o fato de Marcela ser “bela, recatada e do lar”.

Essa reportagem me fez lembrar um episódio emblemático da política brasileira, que retrata bem nossos dias e costumes, e como a deterioração da sociedade é rápida. Em 1994, em pleno carnaval, a modelo Lilian Ramos apareceu sem calcinha ao lado do então presidente Itamar Franco, seu namorado. Itamar substituiu o ex-presidente Collor de Mello, que havia renunciado em pleno processo impeachment.

Lilian estava ao lado de Itamar, no camarote da escola de samba Marquês de Sapucaí. Esse episódio desencadeou reportagens e discursos dos congressistas da época pedindo o afastamento de Franco.  O episódio foi suplantado após algumas semanas com o anúncio do Plano Real.

Faz 22 anos que esse fato com Itamar quase abalou a nação (e poderíamos ter presenciado uma nova renúncia depois da de Collor). Alguns deputados pediram o impedimento do presidente Franco por conta da falta do recato de Lilian.

Hoje o que tem escandalizado as pessoas é o fato de Marcela ser “bela, recatada e do lar”. É um mundo estranho esse em que vivemos onde todos têm liberdade de fazer até libertinagem, mas não podem escolher ficar em casa, cuidar dos filhos e do marido.

A questão não é a guerra ridícula entre feminismo e machismo. A questão é: uma mulher não pode escolher ficar em casa e cuidar do marido e de seus filhos, pois a sociedade feminista não permite.
Em plena época das bandeiras da liberdade, Marcela foi condenada por alguns midiáticos por escolher ficar em casa cuidando de Michelzinho. Mulheres começaram a criticar Marcela por conta disso.

Há 22 anos, uma mulher sem recato quase levou um presidente a sair do seu cargo; hoje uma mulher recatada é chicanada.

O pior não é isso. Tem mulheres que se dizem crentes criticando a Marcela por sua escolha. Mulher, se você trabalha fora, por necessidade ou opção, é uma escolha sua e de seu marido. Isso faz parte de uma decisão de vocês. Contudo, sentir-se ofendida por existirem mulheres que são apontadas como belas, recatadas e do lar é algo totalmente indecente, impróprio e, como dizem os mais jovens, “sem noção”.

Biblicamente falando, isso é desvirtuamento da missão da mulher na Bíblia. Não estou arrazoando sobre o trabalho feminino, e sim, sobre a corrosão da nossa sociedade. Ser mãe, cuidar do marido e dos filhos é totalmente humilhante para essa sociedade que caminha para a destruição da família chamada: padrão.

Pode-se tudo nessa sociedade. Mas, não se tolera valores judaico-cristãos.

Michel é, sem dúvida, um homem de “sorte”! Eu, que tenho uma esposa que trabalha fora, também sou um homem de sorte, abençoado por Deus, pois tenho uma mulher: bela, recatada e do lar.

Você que é uma mulher que trabalha fora e tem sua carreira, não se esqueça que sua maior vitória não será ganhar o mundo, mas ganhar sua família.

“Levantam-se seus filhos e lhe chamam ditosa; seu marido a louva, dizendo: Muitas mulheres procedem virtuosamente, mas tu a todas sobrepujas” (Pv. 31. 28-29).

Em tempos de dificuldades sociais e econômicas, é notório que as mulheres precisam entrar no mercado de trabalho e tem feito esse papel de maneira gloriosa. As mulheres são competentes e dedicadas. O mundo corporativo ganhou com a inserção das mulheres no mercado. Portanto, não estou defendendo extremos. Isso não é uma guerra machista x feminista.

A questão é que, mesmo sem saber qual é a religião da Marcela Temer, eu entendo biblicamente que a principal missão da mulher é o seu lar: “Todavia, será preservada através de sua missão de mãe, se ela permanecer em fé, e amor, e santificação, com bom senso” (1. Tm 2.15).

Não se trata de defender que as mulheres retrocedam em suas conquistas sociais e econômicas, mas é bom notar que o que está em jogo são valores que ultrapassam o simples fato de ficar em casa ou sair para trabalhar.

O que está em jogo é o valor da mulher. O que é ser mulher? O feminismo, falando de maneira bem simplista, trabalha com a ideia de igualdade: ser mulher é ter direitos iguais aos dos homens. A Bíblia fala que a principal e excelente igualdade entre homens e mulheres está no fato de Deus tê-los criados da mesma essência.

A excelência, tanto do homem como da mulher, está no fato de terem sido criados à imagem e semelhança de Deus.

Entretanto, mesmo sendo iguais em natureza, são distintos em funções. A mulher naturalmente e como muita facilidade pode fazer muitas coisas que o homem faz. O homem jamais poderá naturalmente fazer algo tão sublime que é gestar e gerar um filho.

Paulo de Tarso, considerado pelas feministas como machista, inspirado por Deus (portanto não pode ser anacronicamente considerado machista), fala algo belíssimo:

Porque o homem não foi feito da mulher, e sim a mulher, do homem. Porque também o homem não foi criado por causa da mulher, e sim a mulher, por causa do homem. Portanto, deve a mulher, por causa dos anjos, trazer véu na cabeça, como sinal de autoridade. No Senhor, todavia, nem a mulher é independente do homem, nem o homem, independente da mulher. Porque, como provém a mulher do homem, assim também o homem é nascido da mulher; e tudo vem de Deus (1 Co 11. 8-12). Grifo nosso.

Paulo lembra que a primeira mulher veio de um homem: Adão; bem como todos os homens só podem vir da mulher e, inclusive, o próprio Messias veio de uma mulher. “(...) vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl. 4.4).

A questão, portanto, não é uma guerra entre homens e mulheres, mas a constatação do desvirtuamento da sociedade que não aceita algo tão natural: uma mulher ser mãe e cuidar dos filhos e lar.

Entender que a sociedade corre para a confusão de papeis é esperado. Não se espera, entretanto, que mulheres cristãs discutam esses assuntos dentro da agenda feminista ou sejam norteadas por princípios feministas. Isso é corrosão da igreja.

Faço um apelo a você irmã, que trabalha fora do “lar”: não se sinta menor por trabalhar e ganhar o pão tão necessário à sobrevivência. Você pode ser uma mulher “bela, recatada e do lar”, mesmo tendo um emprego. Todavia, não se esqueça que seu papel principal é no seio de sua família.

Para você que é uma mulher “do lar”, eu apelo para que não se sinta desprezada ou despersonalizada pelo fato de cuidar do seu lar. Você está engajada em uma missão maior.

A beleza, o recato e a família devem ser louvado por homens e mulheres.

Maridos, vós, igualmente, vivei a vida comum do lar, com discernimento; e, tendo consideração para com a vossa mulher como parte mais frágil, tratai-a com dignidade, porque sois, juntamente, herdeiros da mesma graça de vida, para que não se interrompam as vossas orações (1 Pe 3.7).

Os homens são homens de “sorte”! Somos abençoados por Deus, pois um dia Deus disse: “Disse mais o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea” (Gn 2.18,19).

Ser bela e recatada não é o problema. Ser do lar não é problema. A grande novidade é que vivemos em um mundo desvirtuado, despudorado, um mundo que se tem tornado cada vez mais feio pelo pecado.

“São os teus olhos a lâmpada do teu corpo; se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; mas, se forem maus, o teu corpo ficará em trevas” (Lc 11.34).
Deus nos abençoe!

Rev. Ricardo Rios Melo.


sábado, 21 de novembro de 2015

A normalização do milagre – uma breve perspectiva sobre o pansobrenaturalismo (4ª parte)

A normalização do milagre – uma breve perspectiva sobre o pansobrenaturalismo (4ª parte)
Rev. Ricardo Rios Melo



A tentativa atual de enfatizar a obra do Espírito como uma obra autônoma é um atentado à Trindade e, na verdade, não tem sido uma exaltação da terceira pessoa da Trindade; antes, tem sido um esforço hercúleo de centralidade no homem. A ênfase tem sido na “liberdade” que o Espírito concede ao homem no culto; na “liberdade” que Ele “concede” ao crente de não necessitar das Escrituras; na liberdade e sabedoria que os crentes recebem de não precisar de mestres que os ensine; liberdade de uma teologia que, segundo eles, engessa a igreja. Outra ênfase é no poder que, segundo eles, o Espírito concede ao crente de falar sem um conhecimento Escriturístico; de prática de toda sorte de “milagres” por obreiros especiais, iluminados, uma casta superior aos pobres crentes comuns da igreja.
O apóstolo Paulo, quando fala da liberdade do Espírito, está no contexto comparativo entre a tentativa frustrada dos judeus de obedecer à lei para a salvação e a liberdade desse fardo impossível, concedida por Cristo aos que creem:

12. Tendo, pois, tal esperança, servimo-nos de muita ousadia no falar. 13  E não somos como Moisés, que punha véu sobre a face, para que os filhos de Israel não atentassem na terminação do que se desvanecia. 14 Mas os sentidos deles se embotaram. Pois até ao dia de hoje, quando fazem a leitura da antiga aliança, o mesmo véu permanece, não lhes sendo revelado que, em Cristo, é removido. 15  Mas até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles. 16  Quando, porém, algum deles se converte ao Senhor, o véu lhe é retirado. 17  Ora, o Senhor é o Espírito; e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.  18  E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito (2 Co 3. 12-18).

Essa parte do texto começa bem antes, quando Paulo faz uma comparação entre o ministério da Morte, que é a Lei, e o ministério da Justiça, que é Cristo. A ideia paulina é que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado e, consequentemente, a morte: “visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Rm 3.20).
O apóstolo Paulo entende que o papel da Lei não é justificar o homem, mas apontar para Cristo; aponta também para a grande realidade espiritual: o homem está morto em seus delitos e pecados: “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados” (Ef 2:1), “e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, - pela graça sois salvos” (Ef 2:5).  “E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos delitos” (Cl 2:13). 
O apóstolo afirma que Cristo nos livrou da escravidão da morte e da terrível obrigação de seguir a lei para a salvação. O papel correto da Lei é resgatado em Cristo, pois é somente o Filho, perfeito, e em sua obra ativa, que poderia cumprir os ditames da lei: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte” (Rm 8. 1,2).
Em 2 Coríntios capítulo 3, Paulo está comparando o ministério da Lei como o ministério de morte. Na teologia paulina, a lei é boa, mas foi enfermada pelo pecado, pois o homem caído não pode por si mesmo segui-la (vd. Rm 8. 1-12). O texto que antecede ao versículo da liberdade do Espírito, usado isoladamente por alguns irmãos, esclarece o pensamento paulino de maneira cristalina. O texto deve ser lido todo como se segue:
1  Começamos, porventura, outra vez a recomendar-nos a nós mesmos? Ou temos necessidade, como alguns, de cartas de recomendação para vós outros ou de vós? 2  Vós sois a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos os homens, 3  estando já manifestos como carta de Cristo, produzida pelo nosso ministério, escrita não com tinta, mas pelo Espírito do Deus vivente, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos corações. 4  E é por intermédio de Cristo que temos tal confiança em Deus; 5  não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus, 6  o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica. 7  E, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, se revestiu de glória, a ponto de os filhos de  Israel não poderem fitar a face de Moisés, por causa da glória do seu rosto, ainda que desvanecente, 8  como não será de maior glória o ministério do Espírito! 9  Porque, se o ministério da condenação foi glória, em muito maior proporção será glorioso o ministério da justiça. 10  Porquanto, na verdade, o que, outrora, foi glorificado, neste respeito, já não resplandece, diante da atual sobreexcelente glória. 11  Porque, se o que se desvanecia teve sua glória, muito mais glória tem o que é permanente. 12  Tendo, pois, tal esperança, servimo-nos de muita ousadia no falar. 13  E não somos como Moisés, que punha véu sobre a face, para que os filhos de Israel não atentassem na terminação do que se desvanecia. 14  Mas os sentidos deles se embotaram. Pois até ao dia de hoje, quando fazem a leitura da antiga aliança, o mesmo véu permanece, não lhes sendo revelado que, em Cristo, é removido. 15  Mas até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles. 16  Quando, porém, algum deles se converte ao Senhor, o véu lhe é retirado. 17  Ora, o Senhor é o Espírito; e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. 18 E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito.

Os detratores de Paulo estão perturbando a igreja em Corinto; criando divisões e promovendo falsas doutrinas. Paulo faz uma exposição belíssima da aplicação da Lei. A comparação entre Cristo e Moisés é fantástica. Moisés escondia o rosto para que o povo não percebesse que a glória do Senhor que estava estampada em seu rosto sairia com brevidade. Mas, em Cristo, a glória é plena. Não precisamos esconder nossos rostos, pois Cristo está em nós. Nossos rostos estão descobertos e estamos livres dos ditames da lei. Estamos livres do pecado e da condenação certeira da lei. O apóstolo tem ousadia no falar, pois o seu ministério traz vida e liberdade. A Letra (lei) mata, o Espírito Santo liberta o homem do pecado e da morte.
Percebam que esses textos não trazem nenhum argumento para os pansobrenaturalistas. Pelo contrário, é um engano e desrespeito ao Espírito distorcer o que o Próprio Espírito inspirou. Falando sobre o fogo estranho de Nadabe e Abiú, John MacArtuhur, aduz:
O Espírito Santo – a gloriosa terceira pessoa da Trindade – não é menor do que o Deus Pai ou o Deus Filho. Assim, desonrá-lo é desonrar o próprio Deus. Insultar o Espírito é tomar o nome de Deus em vão. Afirmar que é ele quem autoriza a adoração obstinada, caprichosa e antibíblica é tratar Deus com desprezo. Transformar o Santo Espírito em um espetáculo é adorar a Deus de uma maneira que o desagrada. É por isso que muitas atitudes irreverentes e doutrinas distorcidas trazidas para a igreja pelo movimento carismático hodierno são iguais ao fogo estranho de Nadabe e Abiú, ou até mesmo pior. Elas são uma afronta ao Espírito Santo e, portanto, ao próprio Deus – o que é motivo para julgamento severo (cf. hebreus 10: 31).[1]

Outros textos são citados por MarcArthur para mostrar que o Espírito requer a mesma reverência que as demais pessoas da Trindade: Mt 12.24; At. 5.11, At 8.20 e  Hb. 10.31.
A tentativa da dissociação da reverência que Deus requer no Antigo Testamento do Novo Testamento é puramente arbitrária e antibíblica. Portanto, o pansobrenaturalismo não só enfatiza a ação do Espírito como algo ordinário e corriqueiro, como também aponta para um agir do Espírito dissociado do Antigo Testamento e da própria trindade. Com o afã de serem espirituais, acabam sendo antropocêntricos, emocionalistas e, nos dizeres de MarcArthur, caóticos. 
Jonh MarcArthur conclama os herdeiros da reforma para uma luta corajosa contra aquilo que ele chama de “abusos difundidos sobre a obra do Espírito”:

Se declararmos fidelidade aos reformados, devemos comportar-nos com o mesmo nível de coragem e convicção que eles demostraram enquanto batalhavam pela fé. Deveria haver uma guerra coletiva contra os abusos difundidos sobre o Espírito de Deus. Este livro é um convite para aderir à  causa pela honra dele. Espero, também lembrá-lo como é o verdadeiro ministério do Espírito Santo. Não é caótico, ostentoso e extravagante (como um circo). Normalmente é oculto e discreto (da forma como o fruto desenvolve). Não precisamos ser frequentemente lembrados que o principal papel do Espírito santo é exaltar Cristo, especialmente para suscitar o louvor o seu povo a Cristo o Espírito faz isso de maneira exclusivamente pessoal, em primeiro lugar nos repreendendo e convencendo – mostrando-nos o nosso próprio pecado, abrindo nossos olhos para o que é a verdadeira justiça, e nos fazendo sentir profundamente a nossa reponsabilidade para com Deus, o justo juiz de todos (João 16: 8-11).[2]

É interessante notar que  a tentativa de colocar o holofote no Espírito atribuindo a Ele todo tipo de comportamento esdrúxulo, como andar como leão, vomitar, risos incontroláveis, curas de dor de cabeça, curas de dor de cotovelo, profecias que não se cumprem, visões estranhas etc., afastam ainda mais o homem de Sua obra.
A obra do Espírito desde o AT está intimamente ligada ao Pai e ao Filho. Contudo, a obra do Espírito no NT é claramente glorificar o Filho; é apontar para o Filho e aplicar a obra Redentiva nos corações dos homens.  O Pai elege, o Filho consuma a obra na Cruz e o Espírito aplica.

continua... 



[1] John MarcArthur, Fogo estranho: um olhar questionador sobre a operação do Espírito Santo no mundo hoje, 1ª ed, Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2015, p. 9.
[2] John MarcArthur, Fogo estranho: um olhar questionador sobre a operação do Espírito Santo no mundo hoje, 1ª ed, Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2015, p. 15,16.

sábado, 24 de outubro de 2015

A normalização do milagre – uma breve perspectiva sobre o pansobrenaturalismo (3ª parte) Rev. Ricardo Rios Melo

A normalização do milagre – uma breve perspectiva sobre o pansobrenaturalismo (3ª parte)
Rev. Ricardo Rios Melo




É inegável a ação do Espírito no Antigo Testamento (AT) em todas as partes da vida do povo de Deus. Entretanto, assim como no Novo Testamento, as pessoas só conseguem enxergar a obra do Espírito ligada a sinais espetaculares; no AT muitas pessoas também só conseguem enxergar a ação do Espírito nos Sinais e maravilhas. Na realidade, existem pessoas que, no afã de dicotomizarem o AT e o NT, na contramão da  visão sobrenaturalista, também fecham os olhos para as ações sobrenaturais do Espírito, no período veterotestamentário.  
Carson, em um excelente artigo sobre Sinais e Maravilhas no Novo Testamento, nos ajuda a entender esses eventos do AT como eventos históricos-redentivos:

Muitos dos eventos que a Bíblia chama de “sinais e maravilhas” são miraculosos, redentivo-históricos – de Deus. No Antigo testamento, os eventos relacionados ao êxodo se destacam (Ex 7.3; conf. 3.20; 8.23; 10.1,2; 11.9, 10; 15.11; Nm 14.22; Dt 4.34; 6.22; 7.19; 26.8; 29.3; Js 3.5; 24.17). As gerações israelitas que se seguiram testemunham isto: “[Deus foi] quem no meio de ti, ó Egito, operou sinais e prodígios, contra Faraó e todos os seus servos” (Sl 135.9; conf. Ne 9.10; Sl 105.27; Jr 32.21). Estevão, baseado nas Escrituras, referiu-se aos eventos do Êxodo dessa mesma forma: “Este [Deus] os tirou, fazendo prodígios e sinais na terra do Egito, assim como no Mar Vermelho e no deserto, durante quarenta anos” (At .7.36).[1]

Para Carson, é inegável a associação de sinais e maravilhas aos eventos históricos-redentivos. É dentro dessa perspectiva que o Novo Testamento interpreta o AT. Os eventos miraculosos, espetaculares do AT estão intimamente ligados ao aspecto redentivo de Deus. O Trino Deus estava agindo no AT e age no NT. Sem o entendimento do envolvimento da trindade na história redentiva, não se pode compreender nenhuma ação do Espírito. O Espírito não age independentemente do Pai. Ele não age à revelia do Filho. A economia da trindade é imprescindível na salvação da humanidade caída.
Muitos discursos dos pansobrenaturalistas atacam, por ingenuidade ou não, a inter-relação da Trindade. Parece que os atos do Espírito Santo espelham um modalismo[2], uma ação distinta e, às vezes, contrária ao Pai e ao Filho. Há um entendimento de que o Espírito pode negar quaisquer coisas que ele falou no passado, pois agora, segundo eles, chegou a sua vez.
Uma interpretação correta da obra da Trindade é de fundamental importância para a vida da igreja. Não é sem motivo que Bavinck declara:

Na doutrina da Trindade sentimos o batimento cardíaco de toda revelação de Deus para a redenção da humanidade. Prefigurada no Antigo Testamento, ela só veio à plena luz em Cristo. A religião não pode se satisfazer com menos do que o próprio Deus. Em cristo, o próprio Deus vem a nós, e, no Espírito Santo, ele se comunica a nós. A obra de recriação é totalmente trinitária. De Deus, por meio de Deus e em Deus são todas as coisas. (...) Sabemos que somos filhos do pai, redimidos pelo filho e temos comunhão com ambos por meio do Espírito Santo. Toda bênção, tanto espiritual quanto material, vem a nós a partir do Deus trino.[3]

 Quando entendemos a obra trinitariana de Deus e seus aspectos históricos-redentivos, podemos perceber melhor a unidade e continuação no NT.  Uma percepção quebrada das Escrituras não compreende a perspectiva de continuidade e descontinuidade revelacional. A ideia pactual faz com que a visão tanto do AT e do NT como da trindade formem um todo unificado. De maneira prática, quando se percebe os atos redentivos de Deus na história como tendo início desde o que os teólogos chamam de proto-evangelho, percebe-se e interpreta-se o NT como uma continuidade do que Deus começou a fazer desde o início.
A terminologia de Velho Testamento e Novo Testamento pode gerar confusão na cabeça dos crentes modernos. Parece que um é antiquado, ultrapassado, anulado, enquanto o outro é moderno, atual e aplicativo. Contudo, é um erro fatal fazer isso, pois a unidade das Escrituras é crucial para a vida da igreja. Uma afirmação importante é feita Geerhardus Vos:
...deve-se notar que, quando a Bíblia fala de um duplo berith, uma dupla diatheke, por “antiga” aliança se entenda não período inteiro que vai da Queda do homem a Cristo, mas o período desde Moisés até Cristo. Entretanto, o que precede o período mosaico na descrição de Gênesis pode ser apropriadamente incorporado sob a “antiga aliança”. No Pentateuco, ela tem a função do prefácio à narrativa das instituições mosaicas e o prefácio pertence à capa do livro. De igual modo, a “Nova Aliança”, no sentido periódico, soteriológico da palavra, vai além do tempo de vida de Cristo na terra e da era apostólica; ela não somente nos inclui, mas se estende e cobre o estado escatológico ou eterno.[4] 

É de suma urgência também entender que a obra redentiva de Deus tem sua centralidade em Cristo. A cristocentricidade da Bíblia é inegável. Portanto, assim como é desonroso não enxergar a obra do Espírito no AT, também é igualmente desonroso não perceber Cristo nas páginas do AT. Goldsworthy trabalha dentro de uma visão unificada das Escrituras:

O quadro unificado envolve a perspectiva bíblica que se move desde a criação até à nova criação, como extensões para a eternidade em ambas as direções. Este não é o lugar para considerarmos a questão complexa da relação do tempo com a eternidade, mas precisamos reconhecer que a Bíblia apresenta um quando de relação de tempo. Isto significa que o grande quadro de relação de tempo. Isto significa que o grande quadro é essencialmente histórico. Mas não é apenas histórico. Acho desapontador o fato de que descrições e introduções do Antigo Testamento contenham, tão frequentemente, pouco mais do que um tipo de resumo histórico dos acontecimentos narrados no texto. Poucos tratariam o Novo Testamento desta maneira, por causa da importância óbvia de Jesus. Mas, no que diz respeito ao Antigo Testamento, a noção de seu conteúdo teológico é, muitas vezes, estranhamente ignorado. O fato é que toda a Bíblia apresenta a sua mensagem como teologia dentro de uma estrutura de história.[5]

Talvez a forma dispensacionalista de enxergar as Escrituras influencie de tal maneira o crente contemporâneo e, inclusive alguns ditos reformados, que eles não conseguem enxergar uma unidade entre o AT e NT e a ação da Trindade.
 Os dispensacionalistas têm uma visão fracionada das Escrituras. Existem variações mais moderadas de dispensacionalismo, mas de maneira geral, a ideia básica apregoada é de uma interpretação estritamente literal das Escrituras. Nesse sentido, portanto, toda profecia a Israel deve ser compreendida de maneira literal e cumprida para Israel. Uma divisão rigorosa entre o Israel do Antigo Testamento e a Igreja no Novo, essa dicotomia entre Israel e a Igreja do NT perdurará eternamente. Essa é uma visão de que o período da Igreja no NT não foi previsto no AT; Israel estaria aguardando o tratamento de Deus com os gentios para voltar a ter um papel principal.
 Alguns dispensacionalistas dividem o tratamento de Deus em sete dispensações: 1. A era da inocência com a Adão e termina com sua queda, ou seja, perda da inocência; 2. A era da consciência quando o homem tomou consciência do bem e do mal e acaba com o dilúvio em Noé; 3. A era do governo humano que começa após o dilúvio e termina em Babel na separação das línguas e povos; 4. Da promessa que obviamente começa e Abraão e termina no exílio egípcio; 5. A era do Sinai ou da lei que impera desde Moisés até a expulsão de Israel e Judá da terra de Canaã; 6. A era da graça que logicamente começa com a morte de Jesus Cristo e que terminará no arrebatamento da igreja; 7. A era do Reino que começará com a segunda vinda de Cristo e terá fim no grande julgamento, essa era também é descrita como Dipespensação do Milênio.[6]
   Uma leitura mais acurada do Novo Testamento já descartaria sumariamente esse tipo fatiado de leitura das Escrituras, com todo respeito. Entretanto, o apóstolo Paulo nos ajuda a entender que o Evangelho nada mais é que a consumação dos atos histórico-redentivos de Deus. A explicação de Paulo sobre o Evangelho, em Rm 3.21,22, mostra claramente isso: “mas agora a justiça de Deus se manifestou, sem lei, atestada pela Lei e pelos profetas. Isto é, a justiça de Deus por meio da fé em Jesus Cristo para todos os que creem”. “Logo, de acordo com Paulo, as Escrituras em sua totalidade – a Lei e os profetas – já ensinavam, de modo resumido, o evangelho que Paulo proclamava: a pessoa pode ser tornada justa diante de Deus pela fé em seu Filho, Jesus Cristo”.[7]
Em uma interpretação empolgante do profeta Amós, no capítulo 9, versículo 11, onde diz: “Naquele dia, levantarei o tabernáculo caído de Davi”, Palmer Robertson afirma que o concílio de Jerusalém, em Atos 15, e a interpretação de Tiago é que esse tabernáculo é restaurado em Cristo e na união entre Judeus e Gentios:

Assim, pode ser sugerido outro entendimento possível para o cumprimento da profecia de Amós. Um cumprimento genuíno está acontecendo na presente era, em harmonia com o argumento de Tiago. A escolha de gentios para ser o povo de Deus em pé de igualdade com os judeus pode ser vista como realização do plano redentor de Deus desde eras passadas. O papel singular de Israel pode ser reconhecido no fato de ele ser o “servo” pelo qual o evangelho é levado às nações. Israel continua a ter importância na inclusão, feita por Deus, de judeus entre os remidos. Todavia, o presente cumprimento da profecia de Amós pode, ao mesmo tempo, ser visto apenas como o “primeiro estágio” da atividade realizadora de Deus. A restauração do trono davídico assume a forma humildade de uma “cabana” ou “tenda”.[8]

 Mais diretamente falando sobre a ação do Espírito nessa unidade entre o Novo e o Antigo, Robertson afirma:

Mas o primeiro capítulo da posse do Espírito pelos gentios hoje garante a futura restauração de todas as coisas. Dotados de corpos transformados pelo poder ressuscitador do mesmo Espírito Santo, os crentes em Cristo participarão, no final, da restauração de todas as coisas, na recriação do céu e da terra.[9]

Quando entendemos continuidade e descontinuidade na Bíblia, fica mais clara a relação da própria obra da trindade. Por exemplo, fica mais fácil entender que a obra do Espírito no AT está ligada aos atos redentivos do Pai e do Filho. No Novo Testamento, a compreensão da obra do Espírito obrigatoriamente passa pela ótica cristocêntrica. A honra ao Espírito está ligada à sua obra de revelar o Filho. O Espírito põe seu holofote no Filho!  “Um enfoque sem esta consideração consiste num esquecimento do Espírito por maior que seja o nosso desejo de ‘reabilitá-lo’ à igreja”. Há o perigo de enfatizarmos erradamente o Espírito em detrimento do Filho”.[10]
Talvez algum incauto argumente que a obra do Espírito é tão superior que se pode blasfemar contra o Pai e o Filho, mas não se pode blasfemar contra o Espírito. Contudo, é uma tremenda heresia entender assim. A não aceitação da blasfêmia contra o Espírito reside exclusivamente na unidade da Trindade.
John Owen nos brinda com uma interpretação fantástica sobre o assunto:

(...) nesse sentido, e não de maneira absoluta, é que ele é enviado com autoridade pelo Pai e pelo Filho. É uma máxima conhecida que desigualdade quanto ao ofício não é desigualdade quanto à natureza. Essa sujeição (se posso chamar assim) ou “desigualdade quanto ao ofício” em nada prejudica a igualdade de natureza que ele tem com o Pai e com o Filho; não mais que a missão do Filho pelo Pai e com o Filho; não mais que a missão do Filho pelo Pai afeta a dele. Dessa missão de autoridade do Espírito dependem a compreensão de muitos mistérios no evangelho e o ordenar nossos corações em comunhão com ele.
Por isso, o pecado contra o Espírito Santo (não discuto o que isso significa agora) é imperdoável e recebe a conotação de rebelião como nenhum outro pecado recebe – isso porque ele não vem ou age em seu próprio nome apenas, mas no nome e na autoridade do Pai e do Filho, de quem e por quem é enviado. Portanto, pecar contra ele é pecar contra a autoridade de Deus, contra todo o amor da Trindade e contra a máxima condescendência de cada pessoa à obra de nossa salvação. É por causa da missão com autoridade do Espírito que o pecado contra ele é peculiarmente imperdoável, pois é contra o amor do Pai, do Filho e do Espírito. Seria com essa base, se fosse este o nosso assunto atual, que a verdadeira natureza do pecado contra o Espírito Santo seria investigada. Certamente, consiste no desprezo de alguma operação dele, enquanto age em nome e na autoridade de toda a trindade em sua inefável condescendência à obra da graça.[11]

Perder a visão trinitária das Escrituras é laborar em erro fatal. Trabalhar os atos miraculosos e sobrenaturais do Espírito sem uma visão da continuidade do AT e NT é inevitavelmente desastroso. O Trino Deus age na História e antes da História humana. Os atos redentivos históricos são atos trinitários.

Continua...




[1] D. A Carson in Religião de Poder; Michal Horton , editor, São Paulo: Cultura Cristã, 1998, p. 76,77.
[2] Doutrina herética que negava a trindade. Grosso modo, eles entendiam que o mesmo Deus tinha três máscaras ou modos de se apresentar. Eles negavam a pessoalidade da trindade. De modo prático, o entendimento era que Deus se apresentava de maneiras diferentes, mas não existia de modo factual o Deus Pai, Deus o Filho e Deus o Espirito, eram apenas modos de Deus se apresentar ao crente. Esse tipo de equívoco foi desenvolvido pelo padre Sabélio no III sec. D.C. daí também o nome de sabelianismo.
[3] Herman Bavinck, Dogmática Reformada – Deus e a Criação, Vl 2,  São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 341.
[4] Geerhardus Vós, Teologia Bíblica, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 41,42.
[5] Graeme Goldsworthy, Pregando Toda a Bíblia como a Escritura cristã: a aplicação da teologia bíblica: à pregação expositiva, São José dos Campo, SP: Editora Fiel, 2013, p. 63,64.
[6] Para uma leitura mais abrangente e preciosa desse tema recomendo o artigo do Rev. João Alves encontrado na internet em diversos sites como da IPCO ou nesse site: http://www.militarcristao.com.br/estudos.php?acao=texto&id=142 .
[7] Andreas J.  Köstenberger e Michael J. Kruger, A Heresia da Ortodoxia: como o fascínio da cultura conteporanea pela diversidade está transformando nossa visão de cristianismo primitivo, São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 99.
[8] O Palmer Robertson in Continuidade e Descontinuidade: perspectivas sobre o relacionamento entre o Antigo e o Novo Testamentos, John S. Feinberg, editor, São Paulo: Hagnos, 2013, p. 125.
[9] O Palmer Robertson in Continuidade e Descontinuidade: perspectivas sobre o relacionamento entre o Antigo e o Novo Testamentos, John S. Feinberg, editor, São Paulo: Hagnos, 2013, p. 125.
[10] Hermisten Maia Pereira da Costa,  Eu Creio: no Pai, no Filho e no Espírito Santo, São José dos Campos, SP: Editora Fiel, p. 438.
[11] John Owen,  Comunhão com o Deus trino, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 285.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

A normalização do milagre – uma breve perspectiva sobre o pansobrenaturalismo (1ª e 2ª parte)

A normalização do milagre – uma breve perspectiva sobre o pansobrenaturalismo (1ª parte)
Rev. Ricardo Rios Melo

Há algum tempo, venho pensando sobre um tipo de pentecostalismo que não é tão incomum. Conversando com alguns crentes, você se sente um totalmente ímpio. Explico: você conversa com eles e eles tiveram várias experiências sobrenaturais na vida. Eles relatam Deus falando com eles, profecias concretizadas, sentimentos oriundos de Deus. Quem estiver perto deles sentir-se-á completamente frio na fé.
Eles dizem ser guiados por Deus para qualquer tarefa por mais corriqueira que seja. Ouvem Deus falando ao coração de maneira audível. Perceba, eles não ouvem a voz de Deus como qualquer crente, eles OUVEM a voz de Deus falando hoje, especificamente com eles, e conversam com Deus.  As experiências são fantásticas! Curas impossíveis, empregos impossíveis, dinheiro impossível, bens extraordinários, curas diárias. Vire à direita! Dobre a esquerda! Siga em frente! Qualquer que seja a atividade, esses extraordinários crentes ou crentes extraordinários, ouvem a voz de Deus em alto e bom som e em tonalidade diferente.
Em conversas comuns, eles se colocam como hiper, super, mega espirituais! De maneira humilde, é claro! Você se sente uma formiga esmagada por um gigante. Deus, para eles, só fala de maneira extraordinária. Enquanto você é incrédulo por acreditar que Deus se revelou nas Escrituras inspiradas pelo Espírito, esses magníficos crentes tem o número direto do whatsapp de Deus.   Quando você diz que apenas tentou cumprir de maneira ínfima o que Deus revelou nas Escrituras, pois o pecado sempre se interpõe como um obstáculo a ser vencido, esse grupo disfarça um deboche inevitável.
Do outro lado da moeda, existem alguns crentes que não conseguem enxergar o sobrenatural em nada. Não percebem os atos invisíveis de Deus em suas vidas. Também não enxergam o milagre de Deus em situações inusitadas. Quando todas as portas se abrem, eles estão de olhos fechados para a condução clara de Deus. É uma espécie de racionalismo travestido de uma pseudopiedade. Vivem como se Deus não os guiasse nos mínimos detalhes.  Eles são ateus crentes. Dizem-se cristãos, mas vivem como se Deus não existisse.
Quem tem filho pequeno acaba tendo que assistir desenhos e filmes infantis. É claro que nos divertimos com isso também. Em uma dessas situações, eu assisti um diálogo do filme “Os Incríveis”. O filho Flecha conversando com sua mãe sobre a necessidade que ele tinha de usar seus dons especiais de herói, ao que ela diz: “filho, todos são especiais”. Flecha responde com a gentileza veraz das crianças: “é um modo diferente de dizer que todos sãos normais”, ou seja, não existem pessoas especiais.
Mutatis mutandis, dizer que os dons extraordinários do Espirito acontecem com todos em todas as épocas é normalizar os dons e dizer que não houve época especial. Contudo, o argumento poderia ser usado contra os reformados aliancistas ao dizerem que Deus age extraordinariamente pelos meios ordinários. Contudo, os reformados aliancistas fazem distinção do período apostólico como inauguração de uma nova era. O pentecostes se reveste de um momento especial, onde as profecias do AT e as promessas de Cristo a seus discípulos, nos Evangelhos, são cumpridas.
Para os reformados aliancistas[1], o Pentecostes foi um evento único na história redentiva. Os discípulos estão aguardando esse momento da descida do Espírito para saírem de Jerusalém (At 1.8). Morthon H. Smitth, em sua Sytematic Theology (Volume Two), alerta-nos para o fato da distinção entre texto doutrinário e didático e os textos históricos.[2] Os textos didáticos, normativos servem para todas as épocas. Contudo, o texto histórico, como o próprio nome diz, serve para o momento em que aconteceram os eventos respectivos.
O caráter aplicativo do AT no Novo Testamento salta aos olhos em todo o NT. Em Marcus 13.11, o poder do espírito está atrelado ao testemunho de Cristo ao mundo: “Quando, pois, vos conduzirem para vos entregar, não vos preocupeis com o que haveis de dizer; mas, o que vos for dado naquela hora, isso falai; porque não sois vós que falais, mas sim o Espírito Santo” Mc 13.11.
Em Lucas 24.49, a mesma ideia é estabelecida do aguardo do Espírito para que os discípulos se ausentassem de Jerusalém: “E eis que sobre vós envio a promessa de meu Pai; ficai porém, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder” Lc 24.49.
Essa promessa deve ser a expectativa dos discípulos para testemunhar com poder e intrepidez do Espírito Santo. Eles não deveriam temer nada e nem ninguém, pois seriam revestidos da força e do poder do Espírito para serem testemunhas de Deus por toda parte: “Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samária, e até os confins da terra” At 1.8.
A promessa do paracleto (consolador, advogado), em Jo 14, foi cumprida. As moradas do Espírito são os crentes que recebem o Espírito e a certificação temporária disso é a manifestação de sinais extraordinários. Essas manifestações fazem parte da transição do AT para o NT.
No capítulo 2 de Atos, Pedro faz uma linda exposição do AT para mostrar que a descida do Espírito Santo está atrelada às promessas do AT e o cumprimento em Cristo. Cristo é doador do Espírito: “De sorte que, exaltado pela destra de Deus, e tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vós agora vedes e ouvis” AT 2.33.
O restante do capítulo é uma bela exposição de Cristo como cumprimento das promessas do Pai. Davi não cumpriu. Mas, o Filho Unigênito foi o único que vem de cima, da parte do Pai e que poderia cumprir e cumpriu as promessas.
Agora Pedro enfatiza que Cristo está colocando todos seus inimigos debaixo dos pés e que o sinal dessa promessa cumprida é o envio do Espírito aos discípulos. Cristo está unido ao Pai e ao Espírito. Os discípulos estão unidos ao Pai, ao Filho e ao Espírito por intermédio do Pentecostes (veja Jo 14 e 15).
Era necessário que o Espírito fosse derramado na Igreja para que Cristo continuasse sendo glorificado. Afinal de contas, a Igreja é o corpo de Cristo. O que fora impossível aos mediadores puramente humanos, o Vero Homem e Vero Deus cumpriu. Ele é maior que Davi e é o cumprimento das promessas:
 “Porque Davi não subiu aos céus, mas ele próprio declara: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés. Saiba pois com certeza toda a casa de Israel que a esse mesmo Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo. E, ouvindo eles isto, compungiram-se em seu coração, e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, irmãos?  Pedro então lhes respondeu: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo.   Porque a promessa pertence a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe: a quantos o Senhor nosso Deus chamar. E com muitas outras palavras dava testemunho, e os exortava, dizendo: salvai-vos desta geração perversa. De sorte que foram batizados os que receberam a sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas; e perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.  Em cada alma havia temor, e muitos prodígios e sinais eram feitos pelos apóstolos” (At 2.34-40).

A promessa aos pais foi cumprida nos filhos.

Entender a forma literária de Atos é imprescindível para compreensão de continuidade e descontinuidade dos dons no NT. Entender as questões da aliança e de suas administrações também é pré-requisito para o entendimento do que se tratará no decorrer desse breve estudo. 
Por hora, fica a resposta do sábio Flecha, “se todo mundo é especial, logo, todo mundo é comum” .

A normalização do milagre – uma breve perspectiva sobre o pansobrenaturalismo (2ª parte)
Rev. Ricardo Rios Melo


Talvez o maior problema relacionado ao entendimento da manifestação do poder e da ação do Espírito Santo no Novo Testamento (NT) esteja relacionado à falta de compreensão do seu papel no Antigo Testamento (AT).
No Antigo Testamento, o poder criador de Deus está intimamente ligado ao Espírito Santo. Talvez não se tenha uma teologia bem delineada à primeira vista. Contudo, um estudo mais atento e sistemático apresenta a maravilhosa diversidade da ação do Espírito. Podemos perceber sua obra desde Gn 1. 1,3. O pairar do Espírito de Deus, ruach elohim, em gênesis “comunica a ideia de ‘abalar’ ou ‘flutuar’. É usado somente em dois outros lugares no Antigo Testamento. Em Jeremias 23. 9, é usado nos ossos sendo movimentados. A despeito de sugestões contrárias, abalar, seguramente, seria um modo inusitado de descrever a atividade do vento”.[3]
A ação do ruach de Deus também é encontrada de dois modos bem distintos e poderosos: criativo e destrutivo. Ferguson nos ajuda mais a entender:

O ruach de Yahweh é, por assim dizer, o sopro de Deus, o poder irresistível pelo qual ele concretiza seus propósitos, quer criativos, quer destrutivos. Por seu ruach ele cria o exército do céu (Sl 33.6), dá poder a juízes salvadores como Otniel e Sansão (Jz 3.10; 14.6), arrebata profetas, eleva-os e os coloca em outros lugares (como, por exemplo, Ez 3.12, 14; 11.1; cf. 1 Rs 18.12). Os que se tornam sujeitos da atividade do divino ruach agem de maneira sobrenatural, com energia e poderes sobrenaturais. O ruach de Deus, portanto, expressa a força irresistível. A energia todo-poderosa de Deus na ordem criada. Ele não pode ser “dominado” pelos homens. Ao contrário, através de Seu ruach Ele é capaz de “domar” ou subjugar todas as coisas para o cumprimento de Seu próprio propósito.[4]  

Wayne Grudem resume e divide em sua sistemática a obra do Espírito Santo dentro do âmbito da Pessoa do Espírito e de sua ação. Quando se refere ao papel do Espírito Santo no Antigo Testamento, ele resume a obra ao poder para o serviço e à proteção e capacidade para vencer os inimigos de Israel.[5]
Citando Isaías 11. 2-3: “Repousará sobre ele o Espírito do Senhor, o Espírito de sabedoria e de entendimento, o Espírito de conselho e de fortaleza, o Espírito de conhecimento e de temor do Senhor. Deleitar-se-á no temor do Senhor...”, Grudem entende que “por fim, o Antigo Testamento predisse o tempo em que o Espírito Santo ungiria um Messias-Servo em grande plenitude e poder”.[6]
Falando sobre a obra criadora do Trino Deus na criação e, especificamente, o trabalho do Espírito, Sproul diz que “parte da obra do Espírito é ‘voejar’ sobre a criação, mantendo as coisas intactas. Quanto a isso, vemos o Espírito Santo como o divino Preservador e Protetor. O Espírito, pois, opera a fim de manter aquilo que o Pai trouxe à existência.”[7]
Para Hodge, o Espírito não só estava na Criação de tudo, mas Ele é o doador de toda vida intelectual. “Através de seu Espírito, Deus deu a Moisés sabedoria necessária para seus altos deveres e, quando lhe foi ordenado que pusesse parte de sua carga sobre setenta anciãos, também lhe foi dito: ‘Então, descerei e ali falarei contigo; tirarei do Espírito que está sobre ti e o porei sobre eles; e contigo levarão a carga do povo, para que não a leves tu somente’ (Nm 11.17).”[8]  
O príncipe dos puritanos, John Owen, diz que “as obras do Espírito Santo no Antigo Testamento eram realizadas tanto extraordinariamente, sobrepujando todas as habilidades realizadoras naturais dos homens, quanto ordinariamente, operando para capacitá-los a fazerem aquelas obras com o mais alto grau das suas habilidades naturais.”[9]
A vida do povo do Antigo Testamento dependia da ação do Espírito para a execução de diversas tarefas, como por exemplo, em Êx 31.3-5, na construção do tabernáculo. Não é muito difícil cometer o erro de entender a ação extraordinária do Espírito como a única ação possível. Mas, em uma leitura mais atenta, é perceptível que o doador de todos os dons no AT é o Espírito e, portanto, condutor da vida do povo em todos os âmbitos.
É claro que a ação extraordinária do Espírito é encontrada nos sinais e, principalmente, nas profecias. “Os profetas do Antigo Testamento testificavam que seus pronunciamentos e escritos provinham do fato de o Espírito Santo ter vindo sobre eles. Ezequiel oferece o exemplo mais claro: “Então, entrou em mim o Espírito quando falava comigo, e me pôs em pé, e ouvi o que me falava” (2.2 cf. 8.3; 11.1, 24; veja tb. 2Pe 1.21).”[10]
Muitos autores entendem que a era do Espírito começa de maneira mais evidente no Novo testamento: “O Antigo Testamento aguarda uma nova era, a era do Espírito de Deus (Is 11.2; 44:3; Ez 36: 27s; Jl 2.28s).[11] Lloyd-Jones, apesar de encontrar algumas distinções entre o Antigo e Novo Testamento, salienta que os homens do VT eram guiados pelo Espírito Santo assim com no NT. Ele utiliza o texto de 2Pe 1.21 e entende que, muito antes do Pentecostes, o Espírito estava sobre os homens do AT capacitando-os para agirem como agiram.[12]
Até o momento, podemos perceber que o Deus da história é criador de tudo que há, mantém, preserva, dirige, conduz, capacita, destrói o que precisa ser destruído, age, movimenta sua criação de modo geral, por intermédio do Seu Espírito.  Além de tudo isso, é importante estabelecer em nossas mentes o fato inequívoco de que “A Escritura estabelece, além de qualquer dúvida, que o Espírito Santo é o princípio subjetivo de toda salvação, da regeneração, da fé, da conversão, do arrependimento, da santificação e assim por diante. Em outras palavras, que não há comunhão com o Pai e o Filho a não ser e por meio do Espírito Santo.[13]
Continua ...



[1] Tendo em vista que hoje muitos se autodenominam reformados e que o espaço desse texto não se destina a explicar as diferenças, optamos por usar essa forma, por compreender que um entendimento do todo revelacional só é possível de maneira satisfatória dentro do entendimento da aliança e de sua progressividade revelacional.
[2] Morton H. Smith, Systematic Theology, Greenville, South Carolina, EUA: Grenville Seminary Press, 1994,  554-555.
[3] Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, Recife: Os Puritanos, 2000, p. 21, 22.
[4] Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, Recife: Os Puritanos, 2000, p. 21, 22.
[5] Vd. Wayne Grudem, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 532, 533.
[6] Vd. Wayne Grudem, Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 532.
[7] RC Sproul,  O Mistério do Espírito Santo, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 85.
[8] Charles Hodge, Teologia Sistemática, São Paulo: Hagnos,  2001, p. 395.
[9] John Owen, O Espírito Santo, Recife: Os puritanos, 2012, p. 21.
[10] Millard J. Erickson, Introdução à Teologia Sistemática, São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 352.
[11] Bruce Milne,  Estudando as Doutrinas da Bíblia,  6ª ed, São Paulo: Vida Nova 1998, p. 182.
[12] Martyn Lloyd-Jones, Deus o Espírito Santo, São Paulo: PES, 1998, p. 44,45.
[13] Herman Bavinck, Dogmática Reformada – Deus e a Criação, Vl 2,  São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 319.