sábado, 21 de março de 2015

A insolvência da igreja tradicional: realidade ou circunstância?

A insolvência da igreja tradicional: realidade ou circunstância?
Rev. Ricardo Rios Melo


Há um crescimento exponencial de comunidades evangélicas no Brasil. Aliás, o advento das comunidades é uma febre em todas as áreas da sociedade: comunidades sociais de cunho físico ou virtual. A internet facilitou e promoveu a possibilidade de criação de comunidades virtuais por afinidade de sentimentos, características pessoais, patologias, estética e milhares de outras comunidades que pretendem, em última instância, dizer que você pertence a um grupo, você é comum. Ser comum normaliza o sujeito.
A palavra comunidade tem o sentido de agremiação, sociedade, comuna, grupo que se reúne geograficamente e, mais recentemente, grupo de fiéis que se reúnem em determinado espaço. É curioso notar que o sentido contemporâneo de comunidade não implica espaço material, físico. Você pode pertencer a uma comunidade virtual.
Comunidade, dentro de um dos sentidos filosóficos, é uma comunhão de espaço e ideias que, necessariamente, não se pode averiguar empiricamente. A sociologia tornou a expressão diretamente ligada a pessoas que se vinculam na sociedade por interesses e, principalmente, comportamentos comuns. (Cf. ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia, 4ª ed., São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 162).
Bauman entende que a comunidade é lugar de segurança do sujeito. É o lugar de pertencimento, aconchego, refúgio, abrigo:

(...) é um lugar ‘cálido’, um lugar confortável e aconchegante. É o teto sob o qual nos abrigamos da chuva pesada, como uma lareira diante da qual esquentamos as mãos num dia gelado, lá fora, na rua, toda sorte de perigo está à espreita; temos que estar alertas quando saímos, prestar atenção como quem falamos e a quem nos fala, estar em prontidão a cada minuto. Aqui, na comunidade podemos relaxar – estamos seguros, não há perigos ocultos em cantos escuros (com certeza, dificilmente um ‘canto’ aqui é ‘escuro’). (BAUMAN. Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual, Rio de Janeiro; Jorge Zahar, Ed. 2003, p. 7).
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Esse “oásis” em pleno deserto pós-moderno tem levado a Igreja institucional, tradicional, confessional ou clássica, a repensar seus valores e propósitos. Um autor que enfatiza muito a necessidade de ressignificação, o que ele chama de propósitos, é Rick Warren em seu livro “Uma Igreja com Propósitos”.
Parece que a igreja, a qual será chamada nesse arrazoado de tradicional, passa por um processo de ressignificação. Ela tem sido atacada de todos os lados. A igreja emergente, comunidade, missão integral e outras designações trazem em seu discurso uma crítica aos moldes protestantes históricos. A própria existência desse “novo” grupo já é uma crítica contundente, pois demostra inquietação e, no entendimento de muitos deles, inabilidade da tradição reformada de responder às demandas modernas.
As palavras: relevância, significado, integral, mudança social têm sido palavras replicadas e decantadas nos discursos. Há um antinomismo claro nos discursos. Há o esvaziamento do púlpito, que em boa parte desses grupos não existe mais.
O pastor não é um pregador, mas um palestrante. Ele precisa vestir-se despojadamente e falar com liberdade e em uma linguagem moderna e sobre atualidades para que sua mensagem seja relevante e sua própria presença seja admitida pela comunidade. Não há lugar para estruturas físicas com formato de igreja. Em 1824, as igrejas protestantes receberam a permissão de celebrarem seus cultos com uma condição: não criarem templos com formatos de igreja.
Hoje, a proibição é epistêmica e pragmática. A ideia é que, para agradar e ser “relevante”, a igreja não pode ter formato interno e externo de igreja. Os templos poderão ser substituídos por locais aconchegantes e de preferência com cara de teatro. E o nome precisa ser modificado para não afastar as pessoas.
Quem estiver atento à ideia de signo, significado, significante, entenderá que estruturas externas pretendem demostrar sinais da mensagem interna que se quer passar. Portanto, um nome ou uma construção não é isenta de significado, existe uma estética filosófica. Uma mensagem direta e indireta. Não era sem motivos que as construções das igrejas medievais tinham aqueles formatos. Era imperativo para a igreja dominante da época passar uma mensagem.
Um exemplo contemporâneo é a construção de templos gigantescos das igrejas neopentecostais. Não se pode falar de prosperidade se a própria igreja é pequena, acanhada, não próspera. Há intencionalidade, método, estudo mercadológico, sociológico.
As igrejas emergentes, comunidades integrais ou não, pretendem realizar uma reforma ou reformissão[1]. Contudo, essa pseudoreforma não tem nenhuma conexão com a reforma do século XVI. Para Carson, existe uma diferença gritante entre as igrejas emergentes e os reformadores:

O que impulsionou a Reforma foi a convicção, que tomou conta de todos os seus líderes, de que a Igreja Católica Romana havia se distanciado das Escrituras e introduzido uma teologia e uma prática contrária à fé cristã genuína. Em outras palavras, eles queriam que as coisas mudassem, mas não porque perceberam que havia ocorrido mudanças na cultura, de modo que a igreja teria que se adaptar a esse novo perfil cultural; antes, eles queriam mudanças por terem percebido o surgimento na igreja de teologia e prática novas que contrariavam as Escrituras e que, portanto, havia uma necessidade de que tudo isso fosse reformado pela palavra de Deus. (...) Trocando em miúdos, no centro da reforma proposta pelo movimento emergente encontra-se a percepção de uma grande mudança na cultura. (CARSON. D. A. Igreja Emergente: o movimento e suas implicações, São Paulo: Vida Nova, 2010, p. 49,50).

A tentativa de decretar a falência da suposta insolvência da igreja tradicional nada mais é que um oportunismo mercadológico. Não há argumentos bíblicos e históricos para que esse processo se torne realidade. Dentro da criação e consumação divina, na perspectiva histórico-redentiva, não há fundamentos substanciais para se propor mudança dogmática.
Os apóstolos já passaram pela tentação de mudar sua mensagem para agradar o público. O apóstolo Paulo, quando escreveu aos Coríntios, no capítulo 1. 21-25, não sucumbiu aos apelos extremados dos seus ouvintes e nem aderiu a qualquer perspectiva hegeliana de síntese:
Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação.   Porque tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria;  mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios;  mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus.  Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.
O nosso Senhor Jesus passou pelo desafio de mudar sua mensagem em João 6, pois Ele sabia que muitos que o seguiam não estavam dispostos a seguir o Evangelho da cruz:
Muitos dos seus discípulos, tendo ouvido tais palavras, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir? Mas Jesus, sabendo por si mesmo que eles murmuravam a respeito de suas palavras, interpelou-os: Isto vos escandaliza? Que será, pois, se virdes o Filho do Homem subir para o lugar onde primeiro estava? O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida. Contudo, há descrentes entre vós. Pois Jesus sabia, desde o princípio, quais eram os que não criam e quem o havia de trair.  E prosseguiu: Por causa disto, é que vos tenho dito: ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido. À vista disso, muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele. Então, perguntou Jesus aos doze: Porventura, quereis também vós outros retirar-vos?Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna; ( JO 6. 60-68)”.
Bom, alguns poderão dizer, por que você não avalia os pontos desses grupos pormenorizadamente dentro das Escrituras? A resposta é simples: como Carson disse, em outras palavras, as mudanças que ocorreram nesses grupos não vieram das Escrituras, mas da exigência sociocultural. “Como dizia Marx sobre a cultura orientada pelo mercado: ‘tudo o que é sólido desmancha no ar’. Deus também se torna uma mercadoria – um produto ou terapia que podemos comprar e usar para nosso bem-estar pessoal” (HORTON, Michael. Cristianismo sem Cristo, São Paulo; Cultura Cristã, 2010, p. 61,62).
O problema que emerge, desculpa o trocadilho, é que as comunidades e afins surgem de uma tentativa de liberdade das amarras institucionais. Entretanto, inevitavelmente, se tornarão instituições e, quando isso acontecer, estarão decretando sua falência:

Como ‘comunidade’ significa atendimento compartilhado do tipo ‘natural’ e ‘tácito’, ela não pode sobreviver ao momento em que o entendimento se torna autoconsciente, estridente e vociferante; quando, para usar mais uma vez a terminologia de Heidegger, o entendimento passa do estado de zuhanden para o de vorhanden e se torna objeto de contemplação e exame. A comunidade só pode estar dormente – ou morta. Quando começa a versar sobre o seu valor singular, a derrarmar-se lírica sobre sua beleza original e a afixar nos muros próximos loquazes manifestos conclamando seus membros a apreciarem suas virtudes e os outros a admirá-los ou calar-se – podemos estar certos de que a comunidade não existe mais (ou ainda, se for o caso). A comunidade ‘falada’ (mais exatamente: a comunidade que fala de si mesma) é uma contradição em termos” (BAUMAN. Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual, Rio de Janeiro; Jorge Zahar, Ed. 2003, p. 17).

Queridos irmãos, é um fato que a pós-modernidade trouxe desafios de comunicação para a igreja tradicional, contudo, a resposta não virá de fora das Escrituras. Achar que a nossa sociedade é pior do que a sociedade em que viveram nossos pais apostólicos e reformadores é, no mínimo, pretensão.
Mudança de símbolo implica mudança da realidade. Alguns querem trocar as escamas sem trocar de corpo. É uma tentativa hercúlea de síntese pós-moderna onde uma libélula bateria suas asas, mas com a certeza que pode voltar para o casulo.
A igreja tradicional precisa se preparar para receber os filhos pródigos, pois, mudando o que deve ser mudado, eles sabem que é na casa do Pai (igreja) que são bem tratados!

para que, se eu tardar, fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade. 1Tm 3:15

Deus nos abençoe!
Rev. Ricardo Rios Melo












[1] Reformissão era uma expressão muito usada e propagada por um dos ícones das igrejas emergentes, Mark Driscoll. Recentemente, um escândalo no ministério desse pastor enfraqueceu levemente essa expressão e atuação. Contudo, no Brasil, esses termos tomaram novos contornos e continuam fortalecidos em congressos e encontros espalhados por todas as regiões.  

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

As cinzas da quarta-feira

As cinzas da quarta-feira



Era fevereiro de 2015. Maria sentiu que havia um sentimento diferente no ar.  A cidade começara a ganhar cores, luzes, painéis. A televisão anunciava a maior festa do mundo: o carnaval. A cidade recebia diariamente visitantes de todo o país e do mundo.  Era bastante interessante ver a mistura de povos, culturas e biótipos. As propagandas eram permeadas por promoções alusivas à festa.
Segundo Roberto DaMatta, na época em que escreveu, professor de Antropologia  da Universidade  de Notre Dame (EUA):

“tanto o carnaval quanto o dia da Pátria são rituais nacionais e mobilizam a população das cidades onde se realizam, exigindo um tipo de tempo especial, vazio, isto é, sem trabalho, um feriado. O carnaval é realizado em três dias (domingo, segunda e terça-feira que antecedem imediatamente a Quaresma), ao passo que o Dia da Pátria (comemorado no dia sete de setembro) é oficialmente parte de uma semana, chamada ‘A Semana da Pátria”. Carnaval e dia da Pátria constituem os dois rituais de maior duração no Brasil, sendo somente comparáveis à Semana Santa, devotada aos ritos que recriam a paixão e Ressurreição de Cristo. Essas três semanas festivas sugerem um ‘triângulo ritual brasileiro’ muito significativo, sobretudo nas suas implicações políticas...” (Roberto DaMatta, Carnavais, Malandros e Heróis, 6ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997, p. 53)

Estavam todos esperando o dia em que o prefeito iria entregar a chave ao novo chefe que eles chamavam de rei, rei momo.  Maria não sabia muito bem a origem da tradição, mas aguardava com ansiedade esse momento.  Dizem os historiadores que a origem do momo vem da antiga Grécia:

“Na mitologia grega, Momo era o deus do sarcasmo e do delírio. Usando um gorro com guizos e segurando em uma mão uma máscara e na outra uma boneca, ele vivia rindo e tirando sarro dos outros deuses. Com esse jeitão esculachado, aprontou tantas que acabou expulso do Olimpo, a morada dos deuses. Ainda antes da era cristã, gregos e romanos incorporaram essa figura mitológica a algumas de suas comemorações, principalmente as que envolviam sexo e bebida. Na Grécia, registros históricos dão conta que os primeiros reis Momos de que se tem notícia desfilavam em festas de orgia por volta dos séculos 5 ou 4 a.C. Geralmente, o escolhido era alguém gordinho e extrovertido - provavelmente vem daí a inspiração para a folia brasileira. Já nas bacanais romanas, os participantes selecionavam um Rei Momo entre os soldados mais belos do exército” (http://mundoestranho.abril.com.br/materia/qual-a-origem-do-rei-momo - acesso em 19/02/2015).

Chega o famoso dia da entrega da chave. A televisão filma. Os foliões estão em polvorosa. Maria não sabe o motivo, mas também está aguardando esse momento cartático. Esse é o momento mais aguardado do ano. O grande dia em que os problemas políticos, sociais, emocionais, familiares darão um descanso. O importante, dizem os amigos de Maria, é curtir, esquecer, extravasar, afinal, no carnaval, tudo é permitido.

As ruas ficam repletas. As faixas, que outrora poderiam lembrar a Maria manifestações de protestos, dão lugar à bebida, à sexualidade explícita, orgias, bebedeira, à típica reverência ao grande rei do carnaval: o rei momo. Quem manda agora na cidade é Momo, o grande rei da bacanália!
Maria está embebecida pela alegria puxada ao som da música, dos trios, das escolas de samba, da bebida farta, das danças sensuais, da possibilidade de se relacionar com alguém sem se comprometer. Que alegria! Que momento festivo! Viva o carnaval! A pobreza, a falta de água em algumas cidades brasileiras, o fato de uma escola de samba ganhar o carnaval supostamente usando dinheiro de um país tido como corrupto e ditatorial, nada disso atrapalha a festa de Maria. Ela quer esquecer que dias atrás estava sofrendo de depressão, com contas para pagar, familiares doentes, perdeu seu marido, está em litígio tentando ganhar a guarda dos filhos. Isso é café pequeno diante de uma festa tão grande que pode mudar a vida dela por três dias.  

 Vai Maria, vai Maria, é o grito dos amigos que ela fez tem poucas horas na folia. A música balança o corpo de Maria em um ritmo alucinante. Ela se anima, chora, ri, parece perder os sentidos depois de ter “bebido todas” e usado estimulantes que, como uma mãe zelosa, provavelmente desaconselharia seus filhos a usar.

Vai Maria, Maria, vai... ela se emociona sabendo que sua escola ganhou o carnaval. Alegra-se, pois a música que ela mais dançou ganhou como a música de carnaval. Maria está feliz. Seus problemas acabaram. Ela volta para casa cansada da maratona.

Chega quarta-feira de cinzas, esse dia que tem uma conotação religiosa para os católicos romanos. Maria é induzida pela sua tia, uma beata, a ir à igreja para purgar seus pecados do carnaval, afinal de contas, a quarta-feira de cinzas é o dia em que o Romanismo comemora o primeiro dia da quaresma. O dia em que, segundo a tradição, eles se lembram que são pó e voltarão ao pó. Um dia de penitência e conversão. Maria não sabe disso, mas vai com a tia. Que mal fará? - pensa Maria.

Alias, é bom você saber que um dos motivos que levou Maria a romper com seu casamento foi a intensa amizade que ela mantinha com um grupo de amigas solteiras ou infelizes no casamento. Elas diziam sempre: - Casamento é prisão, vai Maria acaba com isso logo! Esse negócio de ligar para dizer onde está, chegar cedo em casa, isso não existe mais, ou você arranja uma pessoa moderna ou acaba logo com isso. Maria resolveu acabar com o fardo de ter que dar satisfação à outra pessoa. Agora ela é livre. Não tem ninguém e chega na hora que quer em casa. Não importa quantas vezes ela tenha chorado no travesseiro sozinha. O importante é que ela foi... Maria foi com as outras, Maria vai com as outras.

Essa história, embora fictícia, pode ser a sua história. Fazer as coisas sem perguntar a origem e sem saber o motivo. Viver a vida como uma folha ao vento, sendo levada para qualquer lugar.
Maria vai com as outras é a história de muita gente que tem sido levado pela falsa ilusão de que a felicidade é promovida por agentes tristes. Por mais que uma canção te alegre, por mais que a dança de deixe leve ou te leve, quarta-feira é cinzas. Você se deparará com a vida real. Suas contas, suas tristezas, dissabores. E daí? Você poderá me perguntar, eu te respondo: ela achava que estava sendo livre, mais foi arrastada pelas multidões, pelo preconceito de não poder ser quem é. Você tem que gostar do que todos gostam. Dançar segundo a música e cantar a mesma canção. Você não tem o direito de ser diferente, pois Maria sempre vai com as outras.

Mas, lembre-se das cinzas da quarta-feira! Não falo do dia religioso romano, falo da realidade que está longe de ser colorida e festiva. O mundo real te chama na quarta-feira e diz: sua vida é cinza!
Jesus disse que a verdadeira alegria e paz só Ele pode dar! Alegria de Jesus é paz real em meio à guerra.
Jo 14:27 Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.

Deus lhe conceda a verdadeira paz e alegria!
Rev. Ricardo Rios Melo








quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Seja Ambicioso – uma mensagem de início do ano 2015

Seja Ambicioso –  uma mensagem de início do ano 2015



Queridos, tivemos um ano de vitórias, derrotas, alegrias, choros, ganhos, perdas, ou seja, nenhuma novidade debaixo do sol. Individualmente, obtivemos ou alcançamos metas, deixamos de alcançar outras, fomos persistentes e desistentes.
Todo ano é a mesma coisa: adeus ano velho, feliz ano novo! Expectativas renovadas e sonhos são refeitos ou esperados. Prometemos coisas que dificilmente cumpriremos: correr, fazer ginástica e, como cristãos, que seremos mais zelosos.
Essas promessas fazem parte de um “estado de espírito” que se apodera de nós. É contagiante as luzes, a alegria, os próprios fogos.  O réveillon, que significa: ano bom, ou novo ano, é uma festa de origem pagã. Segundo a enciclopédia aberta, a Wikipédia:

O ano-novo do calendário gregoriano começa em 1 de janeiro (Dia do Ano Novo), assim como era no calendário romano. Existem inúmeros calendários que permanecem em uso em certas regiões do planeta e que calculam a data do ano-novo de forma diferente. A comemoração ocidental tem origem num decreto do imperador romano Júlio César, que fixou o 1 de janeiro como o Dia do Ano-Novo em 46 a.C. Os romanos dedicavam esse dia a Jano, o deus dos portões. O mês de Janeiro deriva do nome de Jano, que tinha duas faces (bifronte) - uma voltada para frente (visualizando o futuro) e a outra para trás (visualizando o passado). O povo romano era politeísta, ou seja, adorava vários deuses diferentes, e não existe nenhum relato de que o povo judeu que viveu nessa mesma época tenha comemorado o ano novo, tampouco os primeiros cristãos (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ano-Novo).

O calendário ocidental foi implantado, da maneira que nós temos hoje, pelo “imperador Júlio César (100-44 a.C.)” que “ introduziu, em 46 a.C., o ano de 365 dias, baseado em um modelo utilizado pelos egípcios, sem alterar os nomes dos meses” (http://mundoestranho.abril.com.br/materia/qual-e-a-origem-dos-nomes-dos-meses).
Cada mês do ano tem um nome relacionado a uma divindade ou festividade romana, entretanto, julho e agosto tem uma história diferente: “Os primeiros seis haviam sido nomeados em homenagem a deuses e festividades romanas e os seguintes, de acordo com sua ordem numérica - mas julho e agosto foram posteriormente rebatizados em homenagem a Júlio César e seu sucessor, César Augusto (63 a.C.-14 d.C.)” (http://mundoestranho.abril.com.br/materia/qual-e-a-origem-dos-nomes-dos-meses).
Portanto, janeiro, o mês tão esperado por todos é uma homenagem a Jano: deus das portas. Um dos mais antigos deuses romanos: “Jano dos mais antigos deuses do panteão romano, filho de Creusa e Apolo. É representado por caras opostas, uma olha para frente e outra olha para trás, como se examinasse as questões por todos os seus aspectos. Orador eloquente, a ponto de frequentar o foro, é o deus das portas, dos começos e dos finais” (http://online.seuhistory.com/deuses/panteao/romano/jano.html).
Perceba, que apesar de salutar a reflexão do ano que passou e a uma projeção e projeto para o ano vindouro, essa forma de abordar o réveillon, mesmo que inconscientemente, é oriunda de Jano, que tinha uma cara voltada para frente e outra para trás.
Não há nada de mal no fato de olharmos para o ano que passou e ponderarmos nossos feitos, defeitos, refeitos. Não há nada de terrível em usar a mitologia como alegoria ou como ela é de fato: mitológica. No entanto, existem pessoas que, muitas vezes sem perceber, são místicas: celebram o ano de maneira mágica, fantasiosa, religiosa. Essa expectativa se aproxima, de certo modo, do pensamento mágico da criança. Há certa proteção psíquica, pois aguardar que os “deuses” trarão bons presentes e que a vida ruim será transformada de um dia para o outro, em uma vida feliz e menos angustiante, é uma esperança, no mínimo, ingênua e própria da criança.
A pessoa adulta que passou por experiências e que deveria aprender com elas, deve ter notado, ao longo do tempo, que um ano é apenas mais um ano. Não existe nenhuma mudança radical que não seja provocada por circunstancias alheias ao nosso controle ou pelas intempéries da vida. Essas mudanças nunca são bem-vindas para nós.
 As mudanças mais significativas e positivas nas passagens de ano têm mais a ver com os propósitos que estabelecemos para ele. Tem a ver com nossas ambições na vida. A palavra ambição, invariavelmente em nossa sociedade, tem o sentido negativo e egoístico. Ambição, para muita gente, tem o significado de egoísmo, de passar por cima de todos para obter lucro ou posição almejada, contudo, a ambição nem sempre é negativa. Ela também tem o sentido de uma vontade intensa que move o sujeito para alcançar seus objetivos. Tem sentido de perseguir seus sonhos e transformá-los em ideais de vida.
Dave Hare escreve um livro, editado pela FIEL, sobre o resgate da ambição verdadeira e para glória de Deus. A ideia de uma ambição humilde, pois é serva da vontade e dos objetivos corretos, focados em Deus e na Sua glória.
O economista e palestrante famoso, Carlos Hilsdorf, escreve um artigo onde ele defende a ambição com ética. O artigo propõe resgatar o sentido adequado da ambição e separa a ambição com ética da ganancia. Ele crê que a rejeição à ambição provém da confusão que as pessoas fazem da etimologia das palavras:
Pessoas ambiciosas buscam se superar continuamente – e isso é bom – desde que suas metas sejam éticas. Devemos lembrar que o processo de inovação é essencialmente realizado por profissionais ambiciosos que buscam incessantemente o novo. Confundir ambição com ganância é a causa de muitas pessoas matarem suas reais possibilidades diante das oportunidades e desafios da vida em seus aspectos pessoais e profissionais.  A ambição associada à ética é saudável. Porém, um ambicioso sem ética se torna facilmente um ganancioso. Pessoas que se valem de quaisquer recursos para obter o que desejam, doa a quem doer e custe o que custar, não são ambiciosas, são gananciosas. Para compreender que ambição e ética são perfeitamente compatíveis, basta deixar clara a diferença entre ambição e ganância e as repercussões de cada uma delas. Derivada do latim, a expressão que deu origem à palavra ambição tratava da ação de cercar por todos os lados as possibilidades de alcançar elevada condição, um forte desejo de alcançar um objetivo” (Fonte: Ambição e Ética | Portal Carreira & Sucesso )

Portanto, seguindo a ideia mitológica, mudando o que deve ser mudado: trocando a ideia mágica pela ideia simbólica, devemos planejar esse ano vindouro com a realidade adulta de que a verdadeira mudança vem de dentro de cada um de nós. É a forma que enxergamos e que encaramos o mundo que nos cerca e o futuro que se aproxima que faz diferença no dia-a-dia. Jesus disse que os olhos são janelas da alma. É claro que Ele falava acerca da salvação e da gritante rejeição de uma geração má e não receptiva a mensagem do Messias, pedindo sinais, sem enxergarem que a Luz do mundo estava diante deles: “São os teus olhos a lâmpada do teu corpo; se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; mas, se forem maus, o teu corpo ficará em trevas. Lc 11:34 .

Faça um proposito em sua vida: tenha ambições corretas em varias áreas de sua vida:

1.     Espiritual: não entenda que existem duas vidas: uma espiritual e outra secular, pois todos que estão em Cristo são espirituais, vivem no Espírito (Rm 8.9), portanto crie metas de ser mais diligente com a palavra, oração, assiduidade nos trabalhos da igreja, santificação em todas as áreas da vida, leitura da palavra e de livros que te enriqueçam, comunhão com os irmãos e fraternidade, trabalho da igreja local se dispondo a fazer e não só encontrar as coisas prontas, crescimento visível na vida cristã: pare para pensar no passado e veja sua evolução na vitória contra os pecados. Estabeleça metas possíveis, bíblicas e SEMPRE contando com o Espirito Santo. Pregue a palavra. Evangelize. Não seja omisso.  

2.     Trabalho: verifique em sua vida se o seu trabalho condiz com que você sempre almejou ao longo dos anos. O que você conquistou? Qual foi seu crescimento? Há como crescer ainda? Você é feliz com o que faz? Se sente realizado? Muitas vezes a falta de sentimento de realização no trabalho tem a ver com a ganância e não com a ambição. Quando seu foco é dinheiro, sucesso a todo custo, poder irrestrito, o vazio será algo inevitável. Não existe nada pior do que uma vida sem ambição correta. Ambição viável é requisito básico para qualquer pessoa que queira sair da estagnação. Pessoas sem ambição são pessoas que, apesar de muitas vezes não saberem e não se aperceberem, são conduzidas pelas circunstancias e pelas pseudo-oportunidades, pois quando temos uma só opção para seguir, ela não é uma  oportunidade, mas será A OPORTUNIDADE. Não há escolha quando deixamos que as pessoas e os eventos conduzam nossa vida. Tenha ambição no sentido positivo da palavra.  

3.     Nos relacionamentos: reate o que foi cortado. Vitória na vida sem ter com quem comemorar, é derrota! É como um corredor de fórmula 1 que estoura uma champanhe sozinho e diz consigo mesmo: eu sou campeão! Que infelicidade é alguém não ter com quem dividir suas vitórias. Aliás, vitória sozinho pode ser um indício de que sua ambição, na verdade, era ganância. Vitória sem Deus é derrota, pois você pode ganhar o mundo todo e perder sua alma (Mt 16.24). Vitória sem família, amigos, significa que sua queda também será solitária. Muitas pessoas só descobrem o valor disso quando perdem tudo. Deixe de dar comida a um leão de criação e descubra se realmente ele é seu amigo. Ter amigos cercado de ouro é o mesmo que nadar em mar de tubarão de barriga cheia, uma hora a fome volta. Portanto, a verdadeira amizade e relacionamentos devem ser cultivados. Não existe amizade sem interesse; mas amizades interesseiras, não são amizades. Busque relacionamentos verdadeiros e de interesses compartilhados e saudáveis: Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho. Porque se caírem, um levanta o companheiro; ai, porém, do que estiver só; pois, caindo, não haverá quem o levante. Também, se dois dormirem juntos, eles se aquentarão; mas um só como se aquentará? Se alguém quiser prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; o cordão de três dobras não se rebenta com facilidade. Ec 4. 9-12.

4.     Casamento e filhos: renove seus laços com seu cônjuge. Olhe para o passado com olhar de misericórdia e veja as grandes lutas que enfrentaram. Cultive o amor mútuo, pois por mais defeituoso, pecador que seja seu cônjuge, vocês se uniram em torno de uma aliança que fizeram com Deus e movidos por um sentimento que, se for regado, voltará a brotar. Muitas pessoas pensam que é mais fácil abandonar o que está pronto do que renovar o que ficou embotado pelo tempo. Entretanto, quando você dá um polimento em um tesouro, você descobrirá que o brilho sempre estava lá! Faça projetos alcançáveis para seu casamento e família. Além do mais, por mais pecador que seja seu cônjuge, lembre-se que você é o maior pecador que você conhece. Além de Deus, ninguém te conhece tanto como você mesmo. Seu cônjuge tem que ter muita paciência e misericórdia com voc também.

5.     Filhos: Crie-os na admoestação do Senhor. Dê limites a eles, amor, carinho, cuidado, e ensine as Sagradas Letras. Crie filhos saudáveis: não passe suas frustações ou projeções para eles (difícil, não é?). Tente criá-los por princípios e sirva de modelo, pois as pessoas, principalmente as crianças, copiam mais modelos do que necessariamente seguem instruções. Nossos filhos são dádiva do Senhor, portanto, cuide deles com carinho e zelo, pois somos apenas mordomos deles, ou seja, antes de serem nossos filhos, eles são do Senhor. Antes de serem embalados pelos nossos braços, eles foram idealizados pelo Senhor e criados pelo nosso mui bondoso Pai. Por incrível que pareça, ELE cuida e os ama mais do que nós. Nós precisamos entender os filhos como herança do Senhor e, assim como o Senhor nos deixa herança, nós também devemos deixar: “O homem de bem deixa herança aos filhos de seus filhos, mas a riqueza do pecador é depositada para o justo. Pv 13:22.  Em uma sociedade sem Deus, nossos velhos são entregues à sorte, mas, aqueles que criam seus filhos nos ensinos do Senhor, entendem que os filhos são a certeza que a nossa velhice será amparada: “Coroa dos velhos são os filhos dos filhos; e a glória dos filhos são os pais. Pv 17:6. Devemos entender filhos como bênção! Se você pensa que seus filhos são uma maldição para você, você está em pecado.  Veja como o Senhor os enxerga:  Herança do SENHOR são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão. Como flechas na mão do guerreiro, assim os filhos da mocidade. Feliz o homem que enche deles a sua aljava; não será envergonhado, quando pleitear com os inimigos à porta”. Sl 127. 3-5.

6.     Conselhos saudáveis e práticos: Diga às pessoas que você as ama, o tempo passa tão rápido, como esse ano que passou. Não perca tempo: fale que ama, gosta, e que essas pessoas são importantes para vocês. Como adultos maduros sabemos que as pessoas que estão hoje conosco podem se ausentar brevemente pela morte ou outra circunstâncias. Evite as brigas desnecessárias. Seja sincero, mas não mal educado. Sincero em amor. Diga com precisão o que quer dizer, mas com o tempero do amor: “Melhor é a repreensão franca do que o amor encoberto. Pv 27:5 .   “Pague sempre o mal com o bem: “Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem. Rm 12:21 .  Evite conflitos e brigas desnecessárias: Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens; se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens; Rm 12: 17,18.


Seja ambicioso querido! Jano não poderá te ajudar, mas o nosso Senhor Jesus poderá te fazer uma nova criatura e lhe trazer um novo olhar sobre a vida presente e a vida futura. Termino com as palavras de Paulo: “Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento. Fp 4:8


Feliz ano bom! Feliz ano novo!
Rev. Ricardo Rios Melo








sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Mergulhando de boia



Mergulhando de boia




Imagine a seguinte cena: um mergulhador faz o curso de mergulho; na hora em que ele é convocado para mergulhar, contudo, ele diz que só vai cair na água se tiver uma boia amarrada em cada braço.
Qualquer pessoa que já entrou no mar sabe que uma boia flutua. Portanto, esse mergulhador não descerá fundo. Essa imagem é o retrato de muitos cristãos protestantes de hoje. Matricularam-se no curso do cristianismo, mas, na hora de mergulhar, só entram se amarrarem boias em seus braços.  
Há visualmente uma queda na qualidade da igreja ou uma evasão de jovens quando esses entram na universidade. Os motivos poderiam ser destacados de diversas formas: sociológicas, psicológicas, filosóficas. Entretanto, a minha ênfase será epistêmica, cosmológica, não deixando de enxergar os aspectos circundantes.
Poderíamos entender esse aspecto do esfriamento ou abandono da fé dentro da linha do cientificismo moderno. Quem sabe reportando a velha ideia de que a religião pertence a outro campo que não é inteligível e, portanto, intocável e dissociado de qualquer possibilidade de ser perscrutado pelo juízo humano.
 Os cristãos que desvanecem na fé ou evadem ao menor sinal de uma onda mais forte foram picados pelo discurso cientista: a ciência toma lugar de Deus.
Para o inventor da psicanálise, Sigmund Freud, a religião é uma invenção do humano para dar conta do que não consegue lidar ou explicar. Freud, em o Futuro de uma Ilusão (2010, p. 71, 72), entendia a religião como um modelo infantil de lidar com o imponderável, desconhecido e fora do controle:
 [...] o motivo do anseio pelo pai é idêntico à necessidade de proteção contra as consequências da impotência humana; a defesa contra o desamparo infantil empresta seus traços característicos à reação contra o desamparo que o adulto é forçado a reconhecer, reação que é precisamente a formação da religião.  

Considerando essa afirmação nesse arrazoado, a religião, em muitos casos, tem se prestado a esse serviço: explicar o inexplicável, dando respostas que estabilizam o sujeito portanto.
Ao entrar na universidade, os jovens teriam outras respostas que satisfariam melhor seus anseios e questões do que a tão combatida religião.
Raciocine comigo: para que alguém continuará firme em um pensamento tão combatido e discriminado se a proposta que lhe é dada traz como presente a aceitação social e a possibilidade de soltar as amarras morais?
Imagine um jovem que pode fazer tudo o que os outros jovens fazem sem ter o peso da culpa em sua consciência? Afinal de contas, segundo ele, fora enganado toda sua vida por respostas insatisfatórias que amordaçaram sua juventude.
 Para termos uma ideia dessa guerra científica pelo terreno da mente humana, recentemente, o papa Francisco declarou que a teoria do Big Bang não é incompatível com a fé cristã.

O papa Francisco afirmou ontem, durante discurso na Pontifícia Academia de Ciências, que a Teoria da Evolução e o Big Bang são reais e criticou a interpretação das pessoas que leem o Gênesis, livro da Bíblia, achando que Deus “tenha agido como um mago, com uma varinha mágica capaz de criar todas as coisas”. Segundo ele, a criação do mundo “não é obra do caos, mas deriva de um princípio supremo que cria por amor”. “O Big Bang não contradiz a intervenção criadora, mas a exige”, disse o pontífice na inauguração de um busto de bronze em homenagem ao papa Emérito Bento XVI (http://www.em.com.br/app/noticia/tecnologia/2014/10/29/interna_tecnologia,584588/papa-ve-teoria-do-big-bang-como-correta.shtml - acesso em 30/10/2012).

 Um detalhe importante é que o antecessor de Francisco, o papa Bento XVI, acreditava na teoria do design inteligente: há um projeto inteligente na criação do universo.
Importante percebermos que há uma tentativa de aproximação sintética entre o pressuposto naturalista da ciência e a religião. Contudo, o papa Francisco exclui o poder divino de criar do nada ex nihiloParece que realmente a religião tornou-se um tabu como Freud alardeava.
Gene Edward Veith Jr descreve o ambiente universitário moderno de forma impressionante:

Às vezes, parece que a consideração da verdade religiosa pode ser o único tabu de uma sociedade permissiva. Flannery O’Connor escreveu que as duas coisas que não poderiam ser mencionadas na universidade de Kansas, minha alma mater a propósito, eram ‘uísque e religião’. Hoje, o uísque é aceitável nos campus das universidades, mas a religião ainda é controversa. Numa história curta, uma das personagens de O’connor exibe esse puritanismo religioso: ‘Jesus Cristo na conversa a deixa encabulada do mesmo modo que o sexo deixava sua mãe”  (VEITH, 2006, p. 49)

Os ataques do pensamento cientificista na universidade e o dualismo cristão: fé x razão são armas de gelo em direção a um crente que usa boias. O curioso dessa batalha é que alguns pensadores acreditam que o discurso científico tem levado muitas pessoas ao oposto: a “religião de magia”. Tendo em vista que a ciência não consegue responder a todas as demandas, muitos acorrem para as religiões de trocas simbólicas e soluções mágicas.
O cristianismo protestante histórico sempre teve uma relação saudável com a ciência e jamais se assustou com as descobertas científicas, pois entende que foi o próprio cristianismo que libertou o homem da ideia pagã de que a natureza era divina e intocável. O pensamento bíblico libertou o homem antigo da inviolabilidade da natureza:

Os fantasmas que transformavam a natureza em objeto de temor e tabu tinham sido banidos. Como resultado, a natureza poderia ser vista de maneira diferente. Como criação de Deus que, depois de ver tudo que fizera, declarou que era ‘muito bom” (Gn 1.31) - ( VEITH, 2006, p. 49)

O crente que mergulha com boias não sabe que a ciência é serva do homem, pois foi dada por Deus. A questão é que a fé ela sempre transpassará a ciência no movimento suprarracional. A fé não é incompatível com a ciência e, ao mesmo tempo, não é sintética.
Os crentes que usam boia precisam de uma metodologia humana para aceitar o que Deus diz que só pela fé podemos entender. Isso não significa que a fé é irracional, mas, que sem fé não poderemos entender.
Agostinho (354-430) já entendia que precisamos crer para entender. Portanto, é pela fé que entendemos que o mundo foi criado do nada: “Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem Hb 11.3.
Infelizmente, queridos, o crente precisa fazer o que Joshua Harris escreveu em seu livro “Cave Mais Fundo”. 
Muitos cristãos têm perdido a fé por não tirarem as boias dos braços. Ficam o tempo todo na igreja mergulhando em piscinas de bebê. Quando são confrontados com o mundo, são engolidos pelo secularismo, frieza e apostasia. Não procuram estudar a Bíblia e nem se aprimorarem na cosmovisão cristã.
Tire as boias! Mergulhe fundo e você encontrará um oceano tão vasto e profundo: “...as insondáveis riquezas de Cristo” (Ef 3.8).

Que Deus te empurre na profundeza da água sem boias, pois Ele é o nosso sustento!

Rev. Ricardo Rios Melo













 



quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O apóstolo Paulo e o crente “Smirnoff”

O apóstolo Paulo e o crente “Smirnoff”




Na história existiu um homem que perseguia a igreja de Cristo e levava os seguidores de Jesus arrastados para encerrá-los em cadeias: ele assolava a igreja (At 8.3). Em Atos 7.58, ele presenciou a morte de Estevão ainda quando jovem. Em Atos 8.1, há o relato de que ele não só presenciou a morte de Estevão, mas consentiu em sua morte. A palavra grega denota que Paulo deu sua aprovação à morte de Estevão.  Um homem que vivia baseado em sua crença; em suas convicções. Em Atos 9.1-2, Saulo pediu cartas para o sumo sacerdote para prender “os do caminho”.
Em Atos 9.3-9, a Bíblia relata a conversão de Saulo: “Seguindo ele estrada fora, ao aproximar-se de Damasco, subitamente uma luz do céu brilhou ao seu redor, e, caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Ele perguntou: Quem és tu, Senhor? E a resposta foi: Eu sou Jesus, a quem tu persegues; mas levanta-te e entra na cidade, onde te dirão o que te convém fazer. Os seus companheiros de viagem pararam emudecidos, ouvindo a voz, não vendo, contudo, ninguém. Então, se levantou Saulo da terra e, abrindo os olhos, nada podia ver. E, guiando-o pela mão, levaram-no para Damasco. Esteve três dias sem ver, durante os quais nada comeu, nem bebeu.
Após sua conversão, Paulo deixa de viver do seu jeito e passa a sofrer pelo nome de Jesus. Ele mudou de perseguidor a perseguido: “Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel; pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome. Então, Ananias foi e, entrando na casa, impôs sobre ele as mãos, dizendo: Saulo, irmão, o Senhor me enviou, a saber, o próprio Jesus que te apareceu no caminho por onde vinhas, para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo” ( At 9:15, 16,17).
Paulo deixou de viver para ele e passou a viver para Cristo:Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro (Fp 1.21).  Ele deixou de viver da sua forma e passou a viver da forma de Cristo:logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim (Gl 2.20).
O crente Paulo decidiu deixar sua vida e o lucro desse mundo para ser servo de Cristo: “Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo Fp 3:8. Paulo se preocupa com os outros: “É bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa com que teu irmão venha a tropeçar ou se ofender ou se enfraquecer Rm 14.21.
Como o espaço é pequeno para falar da história do crente Paulo, eu passo a relatar a história do crente Smirnoff .
Smirnoff foi convertido há algum tempo. Ele não perseguia a igreja, mas também não tinha grandes convicções. A profundidade de Smirnoff  é de uma piscina de crianças. Nunca lutou por nada na vida. Não perseguiu e nem foi perseguido por nada. A filosofia dele é: “quero que o mar pegue fogo para eu comer peixe frito”. Se estiver quente, está bom; se estiver frio, também.
Quando Smirnoff se converteu, foi uma grande festa na sua vida. Ele ficou alegre e festejou. Frequentava a igreja com uma pequena regularidade, mas, Smirnoff  nunca gostou de fanatismo. Sua ligação com as coisas sempre foram bem brandas. Sua profundidade filosófica, teológica, psicológica é maior que qualquer estudioso do mundo, pois ele já leu alguns trechos do Wikipédia. Ele tem uma maneira própria de falar sobre política, teologia, filosofia qualquer assunto. Na verdade, Smirnoff  só fala do que lhe interessa. Ele não se preocupa com o pensamento dos outros. Academia? O pastor fez teologia?  Smirnoff  não se preocupa com isso, pois ele vive teologia. O pastor estudou nos livros, Smirnoff estuda na vida. Aliás, Smirnoff  é o mais espiritual de todos os crentes, pois ele vive do jeito dele que é o jeito correto.  
Esse negócio de história e de crentes perseguidos não interesse a ele, pois ele vive a vida da sua forma. Importa ser ele mesmo. O outro não interessa a Smirnoff. As pessoas só interessam quando há um interesse. Compromisso? Engajamento? Serviço? Que é isso? Para Smirnoff, não se deve mergulhar fundo em nada, pois isso é fanatismo. A frase preferida dele é: você não deve ligar para as opiniões dos outros, pois “o mundo é você quem faz”.
Smirnoff  não precisa ir ao culto; ele pode assisti-lo na internet. Quando ele lê algum livro, é para reforçar o seu jeito de ser. Mas, o que mexe com Smirnoff são os filmes, porquanto “têm mais explosão”.
Se Smirnoff  pudesse encontrar pessoalmente com Paulo, ele certamente diria: Paulo, deixa de ser tão rígido consigo mesmo e de ser tão tradicional (At 2.42). Esse negócio de tradição de apóstolos e doutrina que foi entregue (Rm 6.17) é coisa do passado, estamos na era do “zap zap”. Para esse alegre crente, não é necessário sofrer pela cruz, pois isso é coisa do passado. Ele certamente estaria no mesmo pensamento de Pedro quando disse a Jesus: “Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitado no terceiro dia. E Pedro, chamando-o à parte, começou a reprová-lo, dizendo: Tem compaixão de ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá. Mas Jesus, voltando-se, disse a Pedro: Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens” (Mt 16-21-23).
O crente Smirnoff  nunca foi intenso. Nada ele faz com intensidade. Para não sermos injustos consigo, temos que confessar que ele é intenso em si mesmo. Ele se alegra em ser quem ele é. Esse negócio de imagem de Cristo em nós (Rm 8.29) é coisa ultrapassada. Ele crê que precisamos ser nós mesmos. Para Smirnoff, várias gerações passaram: geração Coca-Cola, com a ideia de que a vida é essa mesma: é isso aí; a geração Pepsi-cola, com a ideia de que qualquer coisa está boa, pode ser; e agora é a vez dele, geração Smirnoff, seja você mesmo.  
Queridos, a história do crente Paulo foi retirada da Bíblia sagrada. O crente Smirnoff foi retirado de uma propaganda que anda circulando na TV e redes sociais e banners. A propaganda é de uma bebida chamada Smirnoff. A mensagem da propaganda é permeada de vários temas importantes da vida. Entretanto, segundo a propaganda, essa geração não se preocupa: “dizem por aí que essa geração não se preocupa com nada”. Ao final da propaganda, após dizer que essa geração desconsidera a opinião do mundo, dos outros etc., ela termina com a seguinte frase: “só me importa ser eu mesmo”. Em um dos banners diz: “aprendeu mais história na viagem do que na faculdade”. O término das propagandas fala: “um brinde à vida real”.
Antes de tudo, devemos aplaudir a criatividade da equipe de marketing. Certamente, cativou várias pessoas que se enquadram na ideia: meu mundo sou eu. A ideia de “importa somente eu e o outro só me importa se for importante para mim” pode parecer uma filosofia moderna, descolada, geração hi-tech, geração pós-moderna. Contudo, é o que chamamos de mais do mesmo. É uma geração ególatra, hedonista prática, onde a própria existência é única possível e é sempre a mais desejável. A única opinião possível é a própria. A única realidade possível é a autocriada. A história vivida é melhor que a história contada.
Certa feita, ouvi de um excelente professor que a experiência de uma vida é sempre pobre comparada a experiência de várias vidas lidas em vários livros. Aa pessoa que só tem sua experiência só tem a experiência de uma vida para contar; diversos autores têm histórias de várias vidas para relatar. A objeção a essa afirmação poderia ser: é melhor tomar um milk-shake ou ler sobre ele?
O fato é que uma boa experiência é algo maravilhoso. Por outro lado, existem várias coisas que, pela experiência relatada em livros ou por relatos de outras pessoas, decidimos não passar. Nem tudo é um milk-shake.
O lema do “só me importa ser eu mesmo” não subsiste ao teste prático, pois somos responsáveis pelo que fazemos e pelo que nos cerca. Somos moldados pela nossa relação com o outro e com o mundo.
A tentativa de um pensamento autônomo e inovador é uma luta inglória, pois ninguém pode ser ele mesmo sem o outro e sem a mediação do mundo. A própria marca Smirnoff  diz, em um de seus banners, a seguinte frase: “diz que me ama, mas não mostra o histórico do chat”. Essa frase diz que para que eu ame eu preciso ter transparência e respeito pelo outro. Seria uma frase existencialista clássica. A única regra da filosofia sartriana é o respeito pelo próximo. A cosmovisão desse grupo seria a ideia existencialista ateia de Jean Paul Sartre (1905-1980). Todavia, essa ideia foge da ideia clássica sartriana, pois dizem que essa “geração não se preocupa com nada”. Portanto, não há motivos de se preocupar com o outro e com o que os outros pensam: o importante é ser você mesmo.
Bom, muitas coisas poderiam ser discutidas nesse arrazoado, mas a comparação do crente Paulo com o crente Smirnoff mostra que escolher um jeito de viver muda tudo em nossas vidas. Entretanto, Paulo não escolhe o novo modo de viver. Ele é convertido pelo Senhor para viver do modo que o Senhor quer. Ele é servo; não, Senhor. Ser crente é morrer para a própria vontade. Não podemos ser crentes do nosso modo.
Se você leu até aqui, já deve ter chegado à mesma conclusão do meu filho de sete anos: “pai, Smirnoff  não é crente”. Pois é! 
Você precisa tomar uma grande decisão em sua vida: Ser um crente Paulo, que sabe o que é padecer em nome de Cristo; ou ser como Smirnoff: “não se preocupa com nada”.
Lembre-se que a nossa vida não se limita a este mundo: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1Co 15:19).
O Cristianismo é a religião da autonegação: Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me (Mt 16:24).

Deus nos faça servos!
Rev. Ricardo Rios Melo