sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O crente não praticante

O crente não praticante
Rev. Ricardo Rios Melo



É muito comum você perguntar a uma pessoa sobre sua religião e, caso ela não tenha outra religião, ela responde: sou católico não praticante. Isso significa que ela foi batizada em sua infância no catolicismo Romano, mas não frequenta a igreja e, muito provavelmente, não prática os dogmas católicos em sua vida.
Essas pessoas, invariavelmente, vão à igreja apenas em eventos como batismos, casamentos e velórios. Possuem crenças místicas justiçáveis dentro do seu pensamento e são sempre otimistas e condescendentes com os seus erros disparando grandes frases: “Deus é pai não, padrasto”; “Deus é grande”. São verdades ditas no vácuo.
Desastrosamente, nas últimas décadas, tem surgido uma nova modalidade: os crentes não praticantes. Não estou falando diretamente do movimento dos “desigrejados”, pois esses formam uma igreja sem igreja e não são o foco desse arrazoado.  Eu me refiro aos que dizem pertencer a uma igreja, contudo não são frequentadores dela. Eles são os crentes não praticantes. Eles aparecem, como diz o adágio popular, “de caju em caju”.  Quando indagados, dizem que estão firmes em casa assistindo programas evangélicos. É o famoso crente Geninho[1]: temos que adivinhar e procurar muito até o fim para o acharmos. Ele se mistura facilmente com as cores do mundo.
Esse grupo, quando ora, é na hora do almoço e, quando a coisa aperta, em situações extremas de doenças ou dificuldades financeiras. São místicos também e sempre acham que no final tudo dará certo: afinal de contas, dizem eles, “Deus é grande”.  Eles não leem a Bíblia e confundem Sofonias com sinfonia (se você não entendeu a piada, precisa ler a Bíblia). 
Alguns desses crentes nominais, quando vão à igreja, escolhem apenas um turno para fazer sua fezinha ou sua parte: se acordam sempre cedo, escolhem ir à igreja pela manhã, pois não será nenhum sacrifício – já estão acordados mesmo! O período da noite eles deixam para seus afazeres ou sua diversão. Não pretendem sacrificar seu domingo indo DUAS vezes ao culto.  Isso é fanatismo, diria um crente nominal ou não praticante. São adeptos da lei do menor esforço quando se refere à igreja.
Se não vão pela manhã, pois estão dormindo, descansando da farra do sábado ou da semana puxada, irão à noite, pois querem uma programação mais leve, desde que o culto termine cedo. Aliás, geralmente, chegam bastante atrasados (isso infelizmente não é uma característica somente desse grupo).
É claro que há pessoas que, por motivo de força maior: doença, idade, casado com não crentes, trabalhos essenciais como médicos plantonistas da área de saúde de modo geral, não podem ir aos dois turnos. Entretanto, para o crente não praticante, a prioridade ou o serviço emergencial é ele mesmo. Sempre tem algo que ele deixou inadiável para o domingo.
Esses crentes nominais estão sempre cansados e ocupados para a obra do Senhor. Não procurem eles, pois sempre estarão ocupados. Alguns desses viajantes da fé estão sempre de férias – férias da igreja. Alguns até são dizimistas fiéis, pois conferem ao dízimo um poder místico: “quando eu dou o dízimo, sempre eu ganho mais no mês”.
Esses crentes ficam irritados quando descobrem que, há muito, seus nomes foram excluídos do rol de membros, pois o conselho fez o seu dever de casa e atualizou o rol.  Eles bradam logo: “domingo passado eu estava aqui” – só esqueceram de dizer o ano. 
Há dentro desse grupo aqueles que são crentes nominais, todavia querem ser “desigrejados” ou pior ainda: eles são a igreja.  São aqueles queridos amigos que pregam, até leem a Bíblia, oram, fazem apelo a si mesmos, mas não veem nenhum sentido em congregar como a Bíblia fala. Em uma linguagem do futebol: “cobram o escanteio e correm para área para cabecearem a bola”.  Esses são os críticos de plantão: o pastor não presta, o sermão não presta, a igreja não presta, ninguém presta, ou melhor, só ele presta. Ele é a autoridade para julgar todos os demais. Esse crente nominal é diferente. Ele é perigoso! Pretende difundir sua ideologia “igreja” a outrem, mas sem responsabilidade com o outro. Eles se julgam maduros e superespirituais. Estão sempre prontos para apontar os problemas da igreja e justificar suas ausências: “todos os domingos o pastor prega a Bíblia”,  “essa é a interpretação dele”, “para quê ir a igreja se eu penso diferente”, “a igreja é ideologia dos homens, Deus não instituiu igreja” , “o importante é o amor ao próximo”.
Nada está bom para o crente nominal (não praticante). Ele afunda uma igreja em segundos e funda sua própria igreja e regras: “eu não preciso disso para ser crente”; “eu penso que a igreja dever ser...”.
O problema é que Jesus veio para salvar a igreja. Os “desigrejados” e os crentes virtuais terão que responder ao Noivo o motivo de não gostarem do seu nome: igreja (noiva). Terão que responder o motivo de não concordarem com as regras que o Noivo lhes impôs inspirando as cartas pastorais e, inclusive, mostrando princípios litúrgicos. Por qual motivo o Senhor daria princípios litúrgicos comunitários se não existisse igreja?
Os crentes não praticantes (nominais), foco desse arrazoado, terão que enfrentar o noivo e responder o motivo de não vigiarem e não esperarem o noivo com a lâmpada acesa: “Então, o reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram a encontrar-se com o noivo.  Cinco dentre elas eram néscias, e cinco, prudentes.  As néscias, ao tomarem as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo;  no entanto, as prudentes, além das lâmpadas, levaram azeite nas vasilhas.  E, tardando o noivo, foram todas tomadas de sono e adormeceram.  Mas, à meia-noite, ouviu-se um grito: Eis o noivo! Saí ao seu encontro!  Então, se levantaram todas aquelas virgens e prepararam as suas lâmpadas.  E as néscias disseram às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas estão-se apagando. Mas as prudentes responderam: Não, para que não nos falte a nós e a vós outras! Ide, antes, aos que o vendem e comprai-o.  E, saindo elas para comprar, chegou o noivo, e as que estavam apercebidas entraram com ele para as bodas; e fechou-se a porta.  Mais tarde, chegaram as virgens néscias, clamando: Senhor, senhor, abre-nos a porta! Mas ele respondeu: Em verdade vos digo que não vos conheço.  Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora “ (Mt 25.1-13).
Nas Escrituras, a palavra igreja está associada a grupo, assembleia, corpo, reunião de pessoas. O apostolo Paulo diz que nós somos o corpo e Cristo é a cabeça: 1 Co 12,27; Ef 3.6;  Ef 4.12,16; Cl 1.18; 2. 19. O Novo Testamento tem no mínimo 73 citações diretas e 74 indiretas com o nome igreja. Como não existe exército de um homem só, não existe igreja de um homem só.  Eu não sou a igreja. Você não é a igreja, mas nós juntos somos a igreja. Igreja implica conjunto e pluralidade. A Bíblia afirma categoricamente que foi pela igreja que Cristo, vero homem e vero Deus, morreu: “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue 20:28.
Muitos confundem igreja com prédio. É verdade que a igreja não está vinculada a um prédio ou edifício de tijolo. Nós somos os tijolinhos de Cristo. Separados somos tijolos, juntos somos o edifício que Deus está formando sobre o fundamento, a Rocha que é Cristo. Parafraseando uma ilustração que ouvi de Joel Beeke, a igreja assemelha-se a uma grande construção: há pregos soltos, entulho, vigas, paredes sem reboco, escadas, andaimes, pouca coisa leva a acreditar que aquela obra empoeirada será um lindo edifício. Contudo, mesmo no meio de tudo isso, Cristo está edificando sua igreja. O noivo vê sua noiva linda e majestosa, imaculada, sem rugas: “para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeitoEf 5:27.
É interessante notar que muitos dão o argumento de que, antigamente, os irmãos se reuniam de casa em casa e que, portanto, agora não precisam de igreja. Isso é uma bobagem sem tamanho, pois as igrejas que estavam nas casas eram igrejas estabelecidas com liderança: presbíteros e diáconos. A ênfase não é no local, mas em como essa igreja era instituída.  O espaço é pequeno para mostrar, por exemplo, as cartas dirigidas às igrejas. É só ler as cartas paulinas. Atos dos apóstolos.  Leiam também Apocalipse e vejam as cartas às igrejas. 
Destituir a importância da organização igreja no sentido do Antigo ou Novo Testamento é destruir os princípios e propósitos divinos. Podemos discutir formas de governo, liturgias, local etc. Podemos não concordar, criticar e até condenar os desmandos e escândalos que acontecem em vários arraiais cristãos. Contudo, não podemos “desigrejar” a Bíblia e muito menos fazer da crença uma mera ideologia ou museu. Os “desigrejados” e os nominais terão que responder a O Cabeça e  a O Noivo que é Cristo.
O maior problema do crente nominal é que o seu nome poderá não constar no Livro da vida, pois o Senhor é claro: Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus (Mt 7.21).
O entendimento equivocado da demora do Senhor em voltar gera nos desavisados a falsa sensação de que o Senhor não voltará mais. Portanto, há uma letargia assolando a igreja.
Sempre é bom lembrar as palavras do Senhor por intermédio do apostolo Pedro: Há, todavia, uma coisa, amados, que não deveis esquecer: que, para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia. Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” ( 2. Pe 3, 9,10).
Querido leitor, tenha cuidado, pois se nós fossemos abençoados pelo compromisso que temos com o Senhor, ou se o Senhor estivesse presente em nossa vida com a frequência que O temos buscado, estaríamos perdidos!
Essa crise dos crentes nominais e dos “desigrejados” já era um problema na era apostólica, não é à toa que o Espírito inspirou o autor aos Hebreus ao dizer: Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima Hb 10:25

Os crentes não praticantes são mestres na prática da desculpa. Para esses o Senhor adverte: “e serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos. Ora, ouvindo tais palavras, um dos que estavam com ele à mesa, disse-lhe: Bem-aventurado aquele que comer pão no reino de Deus. Ele, porém, respondeu: Certo homem deu uma grande ceia e convidou muitos. À hora da ceia, enviou o seu servo para avisar aos convidados: Vinde, porque tudo já está preparado. Não obstante, todos, à uma, começaram a escusar-se. Disse o primeiro: Comprei um campo e preciso ir vê-lo; rogo-te que me tenhas por escusado. Outro disse: Comprei cinco juntas de bois e vou experimentá-las; rogo-te que me tenhas por escusado. E outro disse: Casei-me e, por isso, não posso ir. Voltando o servo, tudo contou ao seu senhor. Então, irado, o dono da casa disse ao seu servo: Sai depressa para as ruas e becos da cidade e traze para aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. Depois, lhe disse o servo: Senhor, feito está como mandaste, e ainda há lugar. Respondeu-lhe o senhor: Sai pelos caminhos e atalhos e obriga a todos a entrar, para que fique cheia a minha casa. Porque vos declaro que nenhum daqueles homens que foram convidados provará a minha ceia”  (Lc 14. 14-24).
Alguém poderia objetar, “então você quer dizer que, para uma pessoa ser salva, ela precisa estar na igreja? Exato! Isso não significa denominação. Significa que você precisa pertencer ao corpo de Cristo. É preciso permanecer na doutrina dos apóstolos e na comunhão dos santos: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações (At 2:42). Você precisa pertencer à igreja visível, pois a igreja invisível, aquela que somente o Senhor conhece, ele é manifestada na igreja visível. Mesmo que dentro dessa igreja visível haja joio, o Senhor recolherá seu trigo de cada igreja visível e cortará o joio: “Outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo;  mas, enquanto os homens dormiam, veio o inimigo dele, semeou o joio no meio do trigo e retirou-se.  E, quando a erva cresceu e produziu fruto, apareceu também o joio. Então, vindo os servos do dono da casa, lhe disseram: Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem, pois, o joio?  Ele, porém, lhes respondeu: Um inimigo fez isso. Mas os servos lhe perguntaram: Queres que vamos e arranquemos o joio?  Não! Replicou ele, para que, ao separar o joio, não arranqueis também com ele o trigo. Deixai-os crescer juntos até à colheita, e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: ajuntai primeiro o joio, atai-o em feixes para ser queimado; mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro(Mt 13. 24-30).
Termino com a nossa Confissão de Fé de Westminster:
XXV.1- A Igreja Católica ou Universal, que é invisível, consta do número total dos eleitos que já foram, dos que agora são e dos que ainda serão reunidos em um só corpo sob Cristo, seu cabeça; ela é a esposa, o corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todas as coisas. Ref.: Ef 1. 10,22,23; Cl 1. 18; Ef. 5. 23,27,32.  
XXV.2- A Igreja visível, que também é católica ou universal sob o Evangelho (não sendo restrita a uma nação, como antes sob a Lei) consta de todos aqueles que pelo mundo inteiro professam a verdadeira religião 1, juntamente com seus filhos 2; é o reino do Senhor Jesus 3, a casa e família de Deus 4, fora da qual não há possibilidade ordinária de salvação 5. Ref.: 1- I Co 1.2; I Co 12. 12,13; Rm 15. 9-12. 2- Gn 17.7; Gl 3. 7,9,14 cf Rm 4; At 2.39; I Co 7. 14; Mc 10. 13-16. 3- Mt 13. 47; Cl 1. 13; Is 9. 7. 4- Ef 2. 19. 5- Mt 28.19; At 2.38; I Co 12.13; Mt 26. 26-28.
Deus converte os seus!
Rev. Ricardo Rios Melo



[1] Personagem de um antigo desenho animado chamado She-Ha onde ao final do episódio as crianças tinham de encontrá-lo no meio do desenho. O detalhe era que o colorido dele parecia com o cenário, ou seja, era muito difícil encontrá-lo. 

sábado, 2 de agosto de 2014

Identidade

Identidade
Rev. Ricardo Rios Melo


Quando alguém pede a você que apresente sua identidade, imediatamente você entrega seu Registro de Identidade (RG) que contém o nome do pai, da mãe, data de nascimento, nome completo e número do registro, foto, naturalidade etc. Esse documento assevera que você não é um indigente. Garante passagem livre em determinados ambientes. Entretanto, esse documento não diz quem você é de fato. É um documento que aponta para uma faceta sua como persona civil: cidadão. Não diz o que você sente ou o que pensa. Mas, sem ela, você é um indigente.
As questões psicológicas que envolvem uma identidade são muito profundas e intricadas em um emaranhado psíquico e pessoal, individual, subjetivo: próprio do Sujeito. Vejamos a luta de pessoas para obterem um registro de nascimento ou o reconhecimento de seus pais. No Brasil, há uma evolução nesse processo com a gratuidade do exame genético de paternidade.  Alguns dos pais que foram obrigados a reconhecerem seus filhos genéticos, jamais serão pais legítimos emocionalmente. Contudo, isso não tem impedido que os filhos busquem desatar seus “nós” psíquicos com esse reconhecimento.
As empresas também possuem identidade visual. Elas querem ser reconhecidas pelos seus símbolos. Mas, dentro desse símbolo, existe um significante: um sentido dado ao significado do símbolo, a realidade à qual o símbolo aponta; uma marca não é marca se não transmitir um conteúdo, uma mensagem, um valor. É o caso das marcas de luxo: “Enquanto os produtos de consumo corrente correspondem a benefícios de tipo funcional, as marcas de luxo remetem a benefícios simbólicos e, cada vez mais, a benefícios ditos ‘experienciais’, isto é, que implicam, no cliente, uma busca de experiências de emoções fortes excepcionais. A imagem de uma marca corresponde, então, ao conjunto das associações estocadas na memória do consumidor” (LIPOVETSKY, Gilles, O Luxo eterno: da idade do sagrado ao tempo das marcas, São Paulo: Companhia das Letras , 2005, p. 136).
A identidade poderia nos remeter à ideia de pertencimento, contudo, segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, “(...) ‘pertencimento’ e a ‘identidade’ não têm a solidez de uma rocha, não são garantidos para toda vida, são bastante negociáveis, e de que as decisões que o próprio indivíduo toma, os caminhos que percorre, a maneira como age - e a determinação de se manter firme a tudo isso – são fatores cruciais tanto para o ‘pertencimento’ quanto para a ‘identidade’.” (BAUMAN, Zygmunt, Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi, Rio de janeiro: Jorge Zahar ed., 2005, p. 17).
As igrejas, por incrível que possa parecer, possuem também uma identidade, um registro com data, nacionalidade. Com significado e significante. Contém a ideia de pertencimento, mas, como Bauman fala, é preciso uma determinação firme a tudo isso.
A Igreja Presbiteriana do Brasil nasceu em 12 de agosto de 1859. Ela tem uma herança genética reformada. Oriunda dos reformados que são caracterizados pelo sistema calvinista de enxergar a realidade e a doutrina de modo geral. Nosso regime também nos caracterizar: governo de presbíteros.  No dia 12 desse ano (2014), a igreja fará 155 anos de história. Existe um DNA da igreja. Pode-se levantar sua paternidade.  Entretanto, essa paternidade não é como o caso brasileiro, onde muitos pais não querem reconhecer seus filhos e são obrigados a reconhecer judicialmente. Na paternidade reformada brasileira, parece existir aquilo que os psicanalistas chamam de caso histérico: destituição de autoridade. Em outras palavras, são os filhos que não querem se reconhecer como filhos no sentido da obediência ou da autoridade. É a destituição das autoridades.  Muitos estão rebeldes a essa filiação. Não reconhecem os marcos históricos e a sua identidade e, muito menos, seu pertencimento. Não há uma determinação firme em permanecer filho.
Há uma tentativa geral em destituir o mestre. Assim como na sociedade há um esvaziamento da autoridade e da origem, muitas igrejas estão entrando nessa histeria teológica.
Recentemente, uma tentativa de alterar um nome de determinada igreja gerou tamanha polêmica que precisou ser discutido o assunto. O que chama a atenção não é a mudança de nome em si, mas a tentativa de mudança de identidade. Os desavisados pensam que só é uma questão de mudança de nome. É como se um filho entrasse no cartório por achar seu nome feio, alegando sofrer um sofrimento psíquico e exposição a situações vexatórias. O nome tem significado e significante. Ele não é vazio. O novo nome escolhido pelo filho também contém preenchimento simbólico e existencial. Portanto, mudar o nome requer conteúdo subjetivo que transpõe a mera visão superficial.
Mudar um símbolo, uma figura, desenho, aquilo que muitos chamam de logomarca, não é algo impensado, pois requer estudo de representação simbólica: a que esse símbolo remete. Quando se escolhe bandeiras, escudos, marcas de empresa, o grupo pretende ser reconhecido por esses símbolos.
A IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil) ao colocar a pomba na sarça, há cerca de 15 anos, pretendeu, de alguma forma, passar uma mensagem filosófica. Muitos não sabem e nem querem saber qual era esse significado, o fato é que, desde então, a igreja tem enfrentado crises de identidade. Estamos lutando para nos parecermos mais com os nossos pais e sermos reconhecidos como reformados. A retirada da pomba, independentemente das razões teológicas (claro que essas devem ser as razões principais), marca um retorno dos filhos querendo o reconhecimento do pai.
No “império das marcas”, não podemos ser ingênuos o bastante para acharmos que mudanças visuais são apenas visuais, elas vão além, são profundas, emaranhadas e intricadas subjetivamente, cheias de sentido.
A pomba voou. Contudo, com ela é preciso voar seus significantes. É preciso voltarmos aos nossos pais reformados e lutarmos pela nossa identidade reformada. Somos Presbiterianos. Isso implica genética reformada, história familiar reformada, princípios reformados passados de geração em geração. A nossa carteira de identidade tem foto e nossos documentos de Fé elaborados em Westminster de 1643 a 1649: Confissão de Fé, Catecismo Maior e Breve Catecismo, preenchem nosso significante. Não devemos remover os marcos antigos que nossos pais nos legaram. Há valores.  Há muito mais do que isso, uma sólida teologia que representa o que nós cremos. Um credo que identifica quem nós somos.  Eu tenho orgulho de meus pais e quero ser ligado a eles pelo meu nome e sobrenome. Quero que minha foto se assemelhe às belas feições deles.
Irmãos, tenhamos alegria em sermos quem somos!  Devemos lembrar dos grandes feitos do Senhor aos nossos pais (Sl 44).
“A identidade”, como bem frisou Bauman, “sejamos claros sobre isso – é um ‘conceito altamente contestado’. Sempre que ouvir essa palavra, pode-se estar certo que está havendo uma batalha. O campo da batalha é o lar natural da identidade. Ela só vem à luz no tumulto da batalha, e dorme e silencia no momento em que desaparecem os ruídos da refrega.  (...) a identidade é uma luta simultânea contra a dissolução e a fragmentação; uma intenção de devorar e ao mesmo tempo uma recusa a ser devorado...” (BAUMAN, Zygmunt, Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi, Rio de janeiro: Jorge Zahar ed., 2005, p. 83,84).
Lutemos pela nossa paternidade. Busquemos resolutamente permanecer fiéis ao nosso pertencimento e à nossa identidade reformada!


Não removas os marcos antigos que puseram teus pais” (Pv 22:28).

Deus nos abençoe!
Rev. Ricardo Rios Melo












  

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Os escolhedores de cabeça


Os escolhedores de cabeça

Por Rev. Ricardo Rios Melo

 

Em minha infância, eu me lembro de ter assistido filmes e desenhos do Scooby-Doo onde uma tribo assustadora e grotesca tinha o poder de encolher cabeças. Estudos atuais já detectaram esse método e descobriram o segredo dessa tribo:

 

Os Encolhedores de Cabeça eram assim conhecidos justamente por causa prática do ritual e do conhecimento da técnica [para encolher as cabeças], mantida em segredo por incontáveis gerações; eles pertenciam a uma tribo denominada Shuar ou Shuaras [e suavam; ô, como suavam para encolher aquelas cabeças!]. Os Suharas são um grupo étnico [biótipo, cultura, dialeto próprios] que habita uma região da floresta fronteiriça entre o Peru e o Equador.
O ritual era praticado como uma forma de justiça aplicada aos inimigos. Os nativos acreditavam que aquele processo era necessário para anular o poder do Espírito daqueles mortos de retornarem em busca de vingança. Ou seja, era uma forma de evitar que o inimigo morto virasse uma assombração.

Gibbon descreve o processo: Primeiro, a parte de trás da cabeça tem de ser aberta. Toda a pele é retirada do crânio juntamente com a cabeleira [portanto, é mais que um escalpelamento, é escalpela-descaramento, se assim o leitor permitir a esse tradutor definir, já que arrancam a cara do sujeito também].

Toma-se muito cuidado para não danificar a peça, especialmente o rosto. O crânio é reservado, [reserve... como se diz nas receitas culinárias] e a carne fresca, descartada. Depois, coloca-se a pele daquele rosto para ferver durante meia hora em mistura de água e tanino, uma substância que tem a propriedade de curtir as peles. Se ferver por mais tempo, os cabelos podem cair.

Essa máscara de defunto é colocada para secar ao sol devidamente recheada com pedras esféricas, para que não se deforme. Depois de seca, é virada ao avesso. O procedimento é repetido durante seis dias até que o material fica com apenas um quarto [25%] de seus tamanho original. Então, os olhos são costurados, para que o Espírito não possa enxergar. Pinos de madeira são transpassados nos lábios, para que o Espírito não possa falar, assim não poderá clamar por vingança. Os pinos também são fixados nas orelhas... para que o defunto não fique escutando conversas.

Ao fim de todo o processo, uma vez que a está perfeitamente cabeça encolhida, recheada, reconstituída em miniatura, é o momento da festa de celebração, a Tzantza.. (http://www.sofadasala.com/noticia/encolhedoresdecabecas.htm - acesso 20/06/2014).

 

Podemos perceber pelo relato que não tem nada de poder místico. É apenas uma técnica muito bem elaborada para assustar os oponentes. Portanto, não precisamos ter medo de que alguém com um cajado ou com palavras mágicas encolha as nossas cabeças. Eles precisam matar a pessoa para que isso aconteça por intermédio de processo químico e, digamos, cirúrgico.

Todavia, quando olhamos a sociedade atual por um ângulo analítico, parece que estamos passando pelo ritual da tribo Shuar: nossos crânios continuam do mesmo tamanho, mas o nosso cérebro tem perdido a capacidade de elaborar, discutir, analisar, perceber o mundo que nos cerca.

Existe uma tribo escolhedora de cabeça que não usa técnicas cirúrgicas ou mágicas, mas estão conseguindo encolher a capacidade do homem de pensar. Não entrarei no campo ideológico, no sentido de vertentes ideológicas, pois é um assunto grande, polêmico e fora da esfera desse arrazoado. A questão é que os escolhedores não poupam ninguém. Há um niilismo ignorante, ignorante porque ignora a conceituação filosófica da negação do sentido. É um não conhecer não derivado da postulação de que não se pode conhecer nada em essência. É um não conhecer por não conhecer. Por não estar nem aí. Por não está conectado com o sentido do sujeito. Não concordo com o niilismo. Entretanto, este é um movimento coerente com o que prega, pois tenta ser uma filosofia agnóstica negando o conhecimento essencial das coisas. Um dos menores problemas para essa filosofia enfrentar é o simples fato de que para conhecer que eu não posso conhecer eu preciso conhecer que não posso conhecer. Os niilistas não concordarão com essa afirmação, mas eu posso alegar que não posso conhecer o que não posso conhecer.

Talvez o problema resida na falta de sentido para o sujeito em buscar qualquer sentido.  Na Era do Vazio, como diria Gilles Lipovetsky ou na Sociedade Líquida, como bem frisou Zygmunt Bauman, a efemeridade é a única constância. A liquidez é a rigidez desse novo homem.

O homem pós-moderno é muito ocupado, cheio, para se dar conta de seu vazio. Na era das redes sociais onde todo mundo está conectado, as relações são superficiais e sem conexão com a amplitude da realidade. Somos íntimos dos desconhecidos e distantes de quem conhecemos de fato.

Há um hedonismo não filosófico também, pois apesar de não elevarem Epicuro (341 a.C) à estatura de um deus, vivem a vida evitando o desprazer. Entretanto, o epicurismo é filosófico e pensante, diferentemente dos “epicuristas” contemporâneos que evitam o desprazer de pensar. Mesmo discordando do hedonismo, não encontramos no hedonismo atual uma apreensão conceitual. A regra é: não pensar! Não se canse! Não queimem seus poucos neurônios!

   Quando somos crianças, temos uma sensação de que, ao fecharmos os olhos, os monstros sumirão da nossa frente. A sociedade atual é infantil e fecha os olhos à realidade. A equação é simples: não penso, logo, não existe. A cabeça encolhida não é detectada pelo espelho de Pollyana que precisa olhar tudo como positivo para não atentar para o fato de sua pobreza e de que seu pai tinha morrido (Pollyanna, escrito por Eleanor H. Porter em 1913).

O lema é: não pense em politica, filosofia, sociologia, história, psicologia, saúde, doença, morte e vida, apenas viva. Respire! Isso me faz lembrar uma frase bastante emblemática do racionalista Descartes, onde ele constata que é a razão que nos diferencia dos animais: “(...) é a única coisa que nos torna homens e nos diferencia dos animais, acredito que existe totalmente em cada um (...). (René Descartes, Os Pensadores, São Paulo: Nova Cultura, 1999, p. 36). Se ele pudesse, revolver-se-ia do túmulo ao olhar para a contemporaneidade.

Dentro da igreja, a tribo Shuar já fez suas vítimas: crentes que não pensam. Esqueceram-se de levar a cabeça para o culto ou já estão com elas encolhidas. Outros, sem saber, seguem a ideia reducionista de Tertuliano (160 – 220 AD) perguntando:  “o que tem a ver Atenas com Jerusalém?”.  Não há um pensamento crítico sobre a mensagem e nem sobre a vida. São os espirituais. Acreditam que ao estudar história, filosofia, sociologia, teologia, ouvir um sermão construído exegeticamente respeitando cultura, língua, história, geografia, ou qualquer outra coisa que não seja a Bíblia apenas, estariam negando a fé.   

Essas vítimas dos encolhedores de cabeça não percebem e nem podem perceber que essa cosmovisão não é deles. Ao olhar para um simples texto da Bíblia, você carrega todos esses valores que eles negam enxergar.

O caleidoscópio da vida não permite a dicotomia grega do homem: a matéria como má e espirito como sendo bom.  

Certa feita, eu convidei o grande historiador e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Dr. Wilson Santana, para falar à igreja sobre sua tese defendida no doutoramento em Ciência da Religião, na PUC/SP , O pensamento social, o Brasil e a religião, que aliás,  é fantástica e merece um livro.  Após terminar a excelente palestra, um irmão piedoso fez a seguinte pergunta para mim: o que isso tem a ver com a igreja, pastor? 

Bom, eu fiquei chocado com a pergunta. Mas, ao longo do tempo, venho tentando mostrar que o homem é um ser total e que conhecer a cultura de modo geral com todas suas nuances é de suma importância para nos comunicarmos com esse mundo vazio de sentido.

A tribo Shuar  contemporânea em nada se assemelha a tribo original, mas está modernizada e altamente tecnológica. Ela tem encolhido indistintamente o cérebro de muitas pessoas, mas espero que você não tenha sido atingido por sua “magia”.  Afinal de contas, como diria o saudoso John Stott, Crer é Também Pensar.

 

Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.

E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” ( Rm 12:1,2).

 

 

 

Deus proteja sua cabeça!

Rev. Ricardo Rios Melo

 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

No corredor da morte

No corredor da morte 
por Rev. Ricardo Rios Melo



O que você faria se fosse sentenciado à morte? O que você pensaria? O que você mudaria em sua vida? E se você tivesse uma chance de viver? Pois é, muitas pessoas apenas param para pensar na vida quando estão em um leito de hospital ou quando a morte é iminente. Pensamentos existenciais normalmente são descartados: “quem sou eu?”, “O que estou fazendo nesse mundo?” “Para onde vou?”, “Qual a finalidade da vida?”, “Minha vida valeu a pena?”
Infelizmente, a vida agitada e corrida da pós-modernidade tem fabricado robôs humanos que deixaram de fazer perguntas que nortearam muitos antepassados. Isso lembra um filme excelente de Charles Chaplin: “Tempos Modernos”, onde Carlitos faz a célebre cena de um operário vítima do automatismo industrial. Um filme que nos ensina como falar verdades brincando, como o próprio Chaplin dizia: Se tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando, falei muitas vezes como um palhaço, mas jamais duvidei da sinceridade da plateia que sorria”.
A finalidade da vida e o valor da existência direcionavam ações e geravam compromissos inalienáveis. A certeza de uma missão no mundo foi propulsora de muitas ações de valor e dignidade.
Contudo, estamos na era da praticidade. O importante é o rápido, flexível, móvel. É o momento da mensagem instantânea no celular, da internet 4G, do microondas, das sopas em copinho. As publicações no Facebook, Whatsapp e outros sites de relacionamento transformam frases existenciais profundas, utilizadas sem reflexão, em frases vazias, apenas para uma breve olhada despretensiosa. Não é difícil ler no mural de muitos facebookianos frases de filósofos, pensadores, psicólogos, teólogos, educadores, historiadores dentre outros.
Todavia, essas frases nas redes sociais são meras apresentações dos momentos específicos e rápidos da vida desses notáveis desconhecidos facebookianos. Ele é paparazzo dele mesmo! E faz questão de registrar seus momentos mais felizes no jornalismo mais rápido da internet: Facebook e redes similares, twitter, dentre outras. 
Não há tempo para pensar na vida, nos valores e temores. Só uma crise leva esse homem pós-moderno parar para pensar na vida; uma depressão, uma enfermidade terminal, uma perda familiar. Quando se ouve alguém falar na vida, geralmente é uma filosofia pessimista e fatalista que levam o homem para o abismo e ao desespero, pois não há esperança.
Uma desfragmentação da humanidade e de seus valores tem formado uma humanidade sem direção ou objetivo. A ideia que reina é viver e, se não interferir na sua vida, deixar viver. Viver para comer, sobreviver, curtir, guardar recursos para se aposentar, criar os filhos, amar e ser amado: tudo isso são coisas que em si mesmas não são ruins. Entretanto, preenchem o pensamento atual de tal forma, que a reflexão existencial inexiste.
 A frase de “que a única certeza que temos na vida é a morte” não passa mais pela cabeça desses transeuntes da vida. São passageiros da vida “rodando sem parar”.  Marisa Monte traz uma ideia atual na canção Seja Feliz: “Seja feliz Com seu país; Seja feliz Sem raiz; Seja feliz Com seu irmão; Seja feliz Sem razão; Tão longa a estrada; Tão longa a sina; Tão curta a vida; Tão largo o céu; Tão largo o mar; Tão curta a vida; Curta a vida”.
A felicidade pretendida pela música e a inteligência dos trocadilhos esconde uma cilada: o importante é ser feliz, pois a vida é curta. Então, curta a vida. O problema reside no fato de que o sentido da vida não é pensando e, muito menos, almejado. A ideia é: viva vivendo, pois a morte chegará e dará um ponto final à sua existência. A morte dará fim a sua festa na vida.
Esses pensamentos não contemplam a ideia metafisica pensada pela filosofia grega platônica, pré-socrática, filosofia oriental e sequer pelo cristianismo, que consideram algo além da matéria.
Existe algo além da vida. A morte não é um fim. Aquilo que se faz hoje ecoa para a eternidade. Eternidade?  Isso mesmo! O cristianismo afirma que a vida é eterna e que, apesar de estarmos o tempo todo no corredor da morte, a morte não é fim.
A sentença de morte, dada pelo Juiz Supremo, no terceiro capítulo do livro de Gênesis, é antecedida pelo anúncio da misericórdia, ou seja, da absolvição: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar(Gn 3.15). E à mulher disse: Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará. E a Adão disse: Visto que atendeste a voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te ordenara não comesses, maldita é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento durante os dias de tua vida” (Gn 3.16,17).
Para a Bíblia, o corredor da morte é uma sentença irrevogável. Por isso, Deus envia seu Filho, nascido de mulher (Mt 1.23), para pagar a pena na Cruz. É a cruz mortífera que concede vida aos sentenciados no corredor: Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram (Rm 5.12).
A boa noticia é que a morte não é o fim para os que creem em Cristo: “Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus (Jo 3:36). 
Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida (Jo 5.24).
Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim tem a vida eterna Jo 6:47. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia (Jo 6.54).
Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos (Jo 15.13).

Venha a Jesus Cristo e saia do corredor da morte!

Deus nos abençoe!
Rev. Ricardo Rios Melo

  




  

sábado, 7 de junho de 2014

O homem e o galo

O homem e o galo

O que é o homem? Essa pergunta permeia os livros de filosofia, história, antropologia, psicologia, teologia, biologia, sociologia etc. Que ser tão magnífico e ao mesmo tempo tão complexo e frágil; capaz das maiores proezas e das maiores barbáries. O salmista, no salmo 8, faz uma pergunta magnífica quando compara a criação de Deus com a criação do homem: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres e o filho do homem, que o visites? (Sl 8.3, 4).
Pascal, acertadamente, fala que “a simples comparação entre nós e o infinito nos abate” (PASCAL, Bleise. Pascal – Vida e Obra - Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1999, p. 47).  Somos abatidos pelo simples fato de sermos humanos; criaturas limitadas contemplando o ilimitado universo e nos debruçando no inesgotável conhecimento. O finito olhando atônito para o infinito.
Como se a finitude não bastasse, o homem, ao morder o fruto proibido, foi fatalmente mordido pelo pecado e expulso da presença de Deus (Gn 3.23,24). O homem criado, existente, finito em conhecimento, contemplador do eterno e agora, por conta de sua transgressão, expulso da presença de Deus, passa a conhecer mais do mal do que do bem. Antes da queda, ele não tinha nenhuma visão do mal e vivia em perfeição. Esse homem, além de finito, torna-se um homem pecador. A luz de outrora agora está longe dele. É necessário rendição ao Sol da Justiça: Cristo. É necessário redenção!
O homem caído e sem esperança, sem Deus no mundo, foi aproximado de Deus novamente em Cristo. Nós, que estávamos afastados da presença de Deus, por conta de nossos pecados, fomos reconciliados com Deus por meio de seu Filho: “naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo. Mas, agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo”  Ef 2:12, 13.
O que muitos cristãos desconhecem, ou se esquecem, é que mesmo depois de sermos resgatados por Cristo, aproximados por Deus pelo Seu sangue, ainda somos mordidos pelo pecado. Não nos tornamos supercrentes. Não somos infalíveis! Somos ainda pequenas criaturas e marcados pelo pecado.
Essa marca do pecado pode ser observada em uma das mais belas biografias relatadas pela Bíblia: a história de Pedro. Ele é chamado por Jesus, em Mt 4. 18. No Evangelho de Lucas 5.8, Pedro demonstra compreensão espiritual diante do milagre de Cristo: “Vendo isto, Simão Pedro prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo: Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador. Que gloriosa afirmação! Que iluminação desse homem!
No evangelho de Mateus 14.8, Pedro mostra sua fé : “Respondendo-lhe Pedro, disse: Se és tu, Senhor, manda-me ir ter contigo, por sobre as águas.  Que declaração de fé! Mas, em pouco tempo, ele fraquejou: “E ele disse: Vem! E Pedro, descendo do barco, andou por sobre as águas e foi ter com Jesus. Reparando, porém, na força do vento, teve medo; e, começando a submergir, gritou: Salva-me, Senhor! E, prontamente, Jesus, estendendo a mão, tomou-o e lhe disse: Homem de pequena fé, por que duvidaste? Subindo ambos para o barco, cessou o vento (Mt 14. 29-32). Que contradição! Um homem tão forte em sua fé fraqueja rapidamente.
Em Mateus 16.16: “Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, Pedro declara saber o que outros não sabiam: Jesus é o Cristo; O Messias prometido;  remissão e redenção do seu povo.  Depois dessa afirmação maravilhosa, em pouco tempo, ele cai: “Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitado no terceiro dia. E Pedro, chamando-o à parte, começou a reprová-lo, dizendo: Tem compaixão de ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá. Mas Jesus, voltando-se, disse a Pedro: Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens” (Mt 16.21-23).
É curioso notar que em Mateus 16. 17-20: “Então, Jesus lhe afirmou: Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus. Então, advertiu os discípulos de que a ninguém dissessem ser ele o Cristo.” Jesus disse que sobre esta pedra Ele iria edificar a igreja. Infelizmente, esse versículo tem sido interpretado equivocadamente como fundamentação para uma autoridade dada a Pedro além do que Cristo deu. As interpretações, que não são o objetivo nesse arrazoado, seguem tradicionalmente dois caminhos: a Igreja Romana entende que Cristo fala de Pedro e de Sua substituição – a ideia de que Pedro é substituto de Cristo e o primeiro papa; e, a outra linha, que segue a ideia muito comum da Reforma Protestante, a afirmação de que Cristo se referiu à declaração de Pedro:  “Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”.  O jogo de palavras: Pedro (pedrinha) e pedra também é curioso dentro da exegese.
Contudo, polêmicas à parte, fica bem claro que Cristo não estava falando que Pedro seria a pedra de sustentação de sua igreja. Ainda que a igreja esteja fundamentada na escola apostólica, Cristo, no mesmo capítulo, usa a expressão parecida, pedra, para dizer que Pedro se tornara pedra de tropeço: “Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens” (Mt 16.23). A igreja seria muito frágil se fosse sustentada sobre um homem. Cristo é a pedra angular e único Salvador. O próprio Pedro declara isso em Atos 4. 11-12: “Este Jesus é pedra rejeitada por vós, os construtores, a qual se tornou a pedra angular. E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4. 11-12).
É Pedro que permite a melhor compreensão da dualidade do homem; da fraqueza que nos atravessou após o pecado. Pedro é homem como nós, capaz do mais nobre ato de bravura como cortar uma orelha do soldado que veio prender Jesus (Lc 22.49). Ele é capaz de dizer que irá seguir Jesus por onde Ele for: “Então, Jesus lhes disse: Esta noite, todos vós vos escandalizareis comigo; porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho ficarão dispersas. Mas, depois da minha ressurreição, irei adiante de vós para a Galiléia. Disse-lhe Pedro: Ainda que venhas a ser um tropeço para todos, nunca o serás para mim. Replicou-lhe Jesus: Em verdade te digo que, nesta mesma noite, antes que o galo cante, tu me negarás três vezes. Disse-lhe Pedro: Ainda que me seja necessário morrer contigo, de nenhum modo te negarei. E todos os discípulos disseram o mesmo (Mt 26. 31 -35).
Mas, cuidado Pedro! Existe um galo em sua vida! “Antes que o galo cante”.  Pedro agora recebe um cronômetro. O tempo estava contra ele. Antes que o galo cantasse, ele iria negar a Cristo três vezes. Note que todos os discípulos disseram o mesmo que Pedro: iriam com Jesus até a morte. Mas era Pedro que seria provado: “Ora, estava Pedro assentado fora no pátio; e, aproximando-se uma criada, lhe disse: Também tu estavas com Jesus, o galileu. Ele, porém, o negou diante de todos, dizendo: Não sei o que dizes.  E, saindo para o alpendre, foi ele visto por outra criada, a qual disse aos que ali estavam: Este também estava com Jesus, o Nazareno. E ele negou outra vez, com juramento: Não conheço tal homem.  Logo depois, aproximando-se os que ali estavam, disseram a Pedro: Verdadeiramente, és também um deles, porque o teu modo de falar o denuncia.  Então, começou ele a praguejar e a jurar: Não conheço esse homem! E imediatamente cantou o galo.  Então, Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe dissera: Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes. E, saindo dali, chorou amargamente (Mt 26. 69-75).
Pedro chorou copiosamente. Ele negou o Mestre. Andou com Ele, aprendeu, viu milagres, presenciou a glória de Cristo, fez o melhor de todos os seminários: andou com Cristo. Mas, antes do galo cantar a terceira vez, ele negou tudo isso.
Depois desse fato vexatório, Pedro mostra sua coragem em Atos 5.40-42:  Chamando os apóstolos, açoitaram-nos e, ordenando-lhes que não falassem em o nome de Jesus, os soltaram. E eles se retiraram do Sinédrio regozijando-se por terem sido considerados dignos de sofrer afrontas por esse Nome. E todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar e de pregar Jesus, o Cristo.
Contudo, todas as manhãs, o galo canta. O forte Pedro, a pequena pedrinha, não resistiu e ficou com medo novamente no grande encontro com Paulo em Gálatas: “Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti -lhe face a face, porque se tornara repreensível. Com efeito, antes de chegarem alguns da parte de Tiago, comia com os gentios; quando, porém, chegaram, afastou-se e, por fim, veio a apartar -se, temendo os da circuncisão. E também os demais judeus dissimularam com ele, a ponto de o próprio Barnabé ter-se deixado levar pela dissimulação deles (Gl 2.11-13). O detalhe é que Pedro tinha aceitado e defendido os gentios no capítulo  15.7-11 de Atos. Todavia, o galo cantou.
 Queridos, ser crente não significa ser impecável. A impecabilidade da alma é uma heresia. A grande demonstração da divindade da Bíblia repousa no mais belo fato e assustadora constatação de que o homem é falho e a exaltação pertence apenas a Deus. O único Ser Santo nas Escrituras é o SENHOR.  Os crentes precisam da santificação. Todavia, esse processo é inacabado nessa vida e é garantido apenas na volta do Senhor.  Enquanto o Senhor não vem, o galo sempre canta!
Entretanto, quando ele cantar bem alto em seus ouvidos, faça como Pedro: chore amargamente, mas levante-se! Cristo sempre está de mãos estendidas para nos levantar. Seu olhar não será de reprovação, mas de misericórdia.
Mesmo depois de Pedro ter pecado tão drasticamente contra o Senhor, Jesus diz ao seu pequeno servo: “Depois de terem comido, perguntou Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-me mais do que estes outros? Ele respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Ele lhe disse: Apascenta os meus cordeiros. Tornou a perguntar-lhe pela segunda vez: Simão, filho de João, tu me amas? Ele lhe respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Pastoreia as minhas ovelhas. Pela terceira vez Jesus lhe perguntou: Simão, filho de João, tu me amas? Pedro entristeceu-se por ele lhe ter dito, pela terceira vez: Tu me amas? E respondeu-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo. Jesus lhe disse: Apascenta as minhas ovelhas (Jo 21. 15-17).
Certamente Pedro se lembrou da negação, do seu pecado e de sua covardia. Entristeceu-se, pois Cristo perguntou a ele a mesma quantidade de vezes que ele negou. Entretanto, Cristo entrega a Pedro um rebanho para ser pastoreado. Que glória! Que doce é a misericórdia do Senhor! Ele usa pessoas falhas, pequenas e cheias de defeitos para pastorear tantas outras com as mesmas características. Não é que Ele queira que cometamos pecado constantemente, não! Mas, ao pecarmos, devemos nos render aos seus pés. Toda autoconfiança deve ser destronada.
A primeira frase de Pedro continua sendo forte: “Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador”. Mas a resposta de Jesus é essa: “(...) E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20).
O galo certamente cantará. Mas, Cristo nos levantará! Ele não despreza um coração contrito. E ainda que muitas vezes o abandonemos na temporalidade de nossa vida e na fragilidade humana e pecaminosa, ele jamais nos descartará! Se um dia você veio ou vier a Cristo, como Pedro fez, Ele jamais te deixará: Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora (Jo 6.37).


Deus nos abençoe!
Rev. Ricardo Rios Melo