sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Mergulhando de boia



Mergulhando de boia




Imagine a seguinte cena: um mergulhador faz o curso de mergulho; na hora em que ele é convocado para mergulhar, contudo, ele diz que só vai cair na água se tiver uma boia amarrada em cada braço.
Qualquer pessoa que já entrou no mar sabe que uma boia flutua. Portanto, esse mergulhador não descerá fundo. Essa imagem é o retrato de muitos cristãos protestantes de hoje. Matricularam-se no curso do cristianismo, mas, na hora de mergulhar, só entram se amarrarem boias em seus braços.  
Há visualmente uma queda na qualidade da igreja ou uma evasão de jovens quando esses entram na universidade. Os motivos poderiam ser destacados de diversas formas: sociológicas, psicológicas, filosóficas. Entretanto, a minha ênfase será epistêmica, cosmológica, não deixando de enxergar os aspectos circundantes.
Poderíamos entender esse aspecto do esfriamento ou abandono da fé dentro da linha do cientificismo moderno. Quem sabe reportando a velha ideia de que a religião pertence a outro campo que não é inteligível e, portanto, intocável e dissociado de qualquer possibilidade de ser perscrutado pelo juízo humano.
 Os cristãos que desvanecem na fé ou evadem ao menor sinal de uma onda mais forte foram picados pelo discurso cientista: a ciência toma lugar de Deus.
Para o inventor da psicanálise, Sigmund Freud, a religião é uma invenção do humano para dar conta do que não consegue lidar ou explicar. Freud, em o Futuro de uma Ilusão (2010, p. 71, 72), entendia a religião como um modelo infantil de lidar com o imponderável, desconhecido e fora do controle:
 [...] o motivo do anseio pelo pai é idêntico à necessidade de proteção contra as consequências da impotência humana; a defesa contra o desamparo infantil empresta seus traços característicos à reação contra o desamparo que o adulto é forçado a reconhecer, reação que é precisamente a formação da religião.  

Considerando essa afirmação nesse arrazoado, a religião, em muitos casos, tem se prestado a esse serviço: explicar o inexplicável, dando respostas que estabilizam o sujeito portanto.
Ao entrar na universidade, os jovens teriam outras respostas que satisfariam melhor seus anseios e questões do que a tão combatida religião.
Raciocine comigo: para que alguém continuará firme em um pensamento tão combatido e discriminado se a proposta que lhe é dada traz como presente a aceitação social e a possibilidade de soltar as amarras morais?
Imagine um jovem que pode fazer tudo o que os outros jovens fazem sem ter o peso da culpa em sua consciência? Afinal de contas, segundo ele, fora enganado toda sua vida por respostas insatisfatórias que amordaçaram sua juventude.
 Para termos uma ideia dessa guerra científica pelo terreno da mente humana, recentemente, o papa Francisco declarou que a teoria do Big Bang não é incompatível com a fé cristã.

O papa Francisco afirmou ontem, durante discurso na Pontifícia Academia de Ciências, que a Teoria da Evolução e o Big Bang são reais e criticou a interpretação das pessoas que leem o Gênesis, livro da Bíblia, achando que Deus “tenha agido como um mago, com uma varinha mágica capaz de criar todas as coisas”. Segundo ele, a criação do mundo “não é obra do caos, mas deriva de um princípio supremo que cria por amor”. “O Big Bang não contradiz a intervenção criadora, mas a exige”, disse o pontífice na inauguração de um busto de bronze em homenagem ao papa Emérito Bento XVI (http://www.em.com.br/app/noticia/tecnologia/2014/10/29/interna_tecnologia,584588/papa-ve-teoria-do-big-bang-como-correta.shtml - acesso em 30/10/2012).

 Um detalhe importante é que o antecessor de Francisco, o papa Bento XVI, acreditava na teoria do design inteligente: há um projeto inteligente na criação do universo.
Importante percebermos que há uma tentativa de aproximação sintética entre o pressuposto naturalista da ciência e a religião. Contudo, o papa Francisco exclui o poder divino de criar do nada ex nihiloParece que realmente a religião tornou-se um tabu como Freud alardeava.
Gene Edward Veith Jr descreve o ambiente universitário moderno de forma impressionante:

Às vezes, parece que a consideração da verdade religiosa pode ser o único tabu de uma sociedade permissiva. Flannery O’Connor escreveu que as duas coisas que não poderiam ser mencionadas na universidade de Kansas, minha alma mater a propósito, eram ‘uísque e religião’. Hoje, o uísque é aceitável nos campus das universidades, mas a religião ainda é controversa. Numa história curta, uma das personagens de O’connor exibe esse puritanismo religioso: ‘Jesus Cristo na conversa a deixa encabulada do mesmo modo que o sexo deixava sua mãe”  (VEITH, 2006, p. 49)

Os ataques do pensamento cientificista na universidade e o dualismo cristão: fé x razão são armas de gelo em direção a um crente que usa boias. O curioso dessa batalha é que alguns pensadores acreditam que o discurso científico tem levado muitas pessoas ao oposto: a “religião de magia”. Tendo em vista que a ciência não consegue responder a todas as demandas, muitos acorrem para as religiões de trocas simbólicas e soluções mágicas.
O cristianismo protestante histórico sempre teve uma relação saudável com a ciência e jamais se assustou com as descobertas científicas, pois entende que foi o próprio cristianismo que libertou o homem da ideia pagã de que a natureza era divina e intocável. O pensamento bíblico libertou o homem antigo da inviolabilidade da natureza:

Os fantasmas que transformavam a natureza em objeto de temor e tabu tinham sido banidos. Como resultado, a natureza poderia ser vista de maneira diferente. Como criação de Deus que, depois de ver tudo que fizera, declarou que era ‘muito bom” (Gn 1.31) - ( VEITH, 2006, p. 49)

O crente que mergulha com boias não sabe que a ciência é serva do homem, pois foi dada por Deus. A questão é que a fé ela sempre transpassará a ciência no movimento suprarracional. A fé não é incompatível com a ciência e, ao mesmo tempo, não é sintética.
Os crentes que usam boia precisam de uma metodologia humana para aceitar o que Deus diz que só pela fé podemos entender. Isso não significa que a fé é irracional, mas, que sem fé não poderemos entender.
Agostinho (354-430) já entendia que precisamos crer para entender. Portanto, é pela fé que entendemos que o mundo foi criado do nada: “Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem Hb 11.3.
Infelizmente, queridos, o crente precisa fazer o que Joshua Harris escreveu em seu livro “Cave Mais Fundo”. 
Muitos cristãos têm perdido a fé por não tirarem as boias dos braços. Ficam o tempo todo na igreja mergulhando em piscinas de bebê. Quando são confrontados com o mundo, são engolidos pelo secularismo, frieza e apostasia. Não procuram estudar a Bíblia e nem se aprimorarem na cosmovisão cristã.
Tire as boias! Mergulhe fundo e você encontrará um oceano tão vasto e profundo: “...as insondáveis riquezas de Cristo” (Ef 3.8).

Que Deus te empurre na profundeza da água sem boias, pois Ele é o nosso sustento!

Rev. Ricardo Rios Melo













 



quarta-feira, 10 de setembro de 2014

O apóstolo Paulo e o crente “Smirnoff”

O apóstolo Paulo e o crente “Smirnoff”




Na história existiu um homem que perseguia a igreja de Cristo e levava os seguidores de Jesus arrastados para encerrá-los em cadeias: ele assolava a igreja (At 8.3). Em Atos 7.58, ele presenciou a morte de Estevão ainda quando jovem. Em Atos 8.1, há o relato de que ele não só presenciou a morte de Estevão, mas consentiu em sua morte. A palavra grega denota que Paulo deu sua aprovação à morte de Estevão.  Um homem que vivia baseado em sua crença; em suas convicções. Em Atos 9.1-2, Saulo pediu cartas para o sumo sacerdote para prender “os do caminho”.
Em Atos 9.3-9, a Bíblia relata a conversão de Saulo: “Seguindo ele estrada fora, ao aproximar-se de Damasco, subitamente uma luz do céu brilhou ao seu redor, e, caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Ele perguntou: Quem és tu, Senhor? E a resposta foi: Eu sou Jesus, a quem tu persegues; mas levanta-te e entra na cidade, onde te dirão o que te convém fazer. Os seus companheiros de viagem pararam emudecidos, ouvindo a voz, não vendo, contudo, ninguém. Então, se levantou Saulo da terra e, abrindo os olhos, nada podia ver. E, guiando-o pela mão, levaram-no para Damasco. Esteve três dias sem ver, durante os quais nada comeu, nem bebeu.
Após sua conversão, Paulo deixa de viver do seu jeito e passa a sofrer pelo nome de Jesus. Ele mudou de perseguidor a perseguido: “Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel; pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome. Então, Ananias foi e, entrando na casa, impôs sobre ele as mãos, dizendo: Saulo, irmão, o Senhor me enviou, a saber, o próprio Jesus que te apareceu no caminho por onde vinhas, para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo” ( At 9:15, 16,17).
Paulo deixou de viver para ele e passou a viver para Cristo:Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro (Fp 1.21).  Ele deixou de viver da sua forma e passou a viver da forma de Cristo:logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim (Gl 2.20).
O crente Paulo decidiu deixar sua vida e o lucro desse mundo para ser servo de Cristo: “Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo Fp 3:8. Paulo se preocupa com os outros: “É bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa com que teu irmão venha a tropeçar ou se ofender ou se enfraquecer Rm 14.21.
Como o espaço é pequeno para falar da história do crente Paulo, eu passo a relatar a história do crente Smirnoff .
Smirnoff foi convertido há algum tempo. Ele não perseguia a igreja, mas também não tinha grandes convicções. A profundidade de Smirnoff  é de uma piscina de crianças. Nunca lutou por nada na vida. Não perseguiu e nem foi perseguido por nada. A filosofia dele é: “quero que o mar pegue fogo para eu comer peixe frito”. Se estiver quente, está bom; se estiver frio, também.
Quando Smirnoff se converteu, foi uma grande festa na sua vida. Ele ficou alegre e festejou. Frequentava a igreja com uma pequena regularidade, mas, Smirnoff  nunca gostou de fanatismo. Sua ligação com as coisas sempre foram bem brandas. Sua profundidade filosófica, teológica, psicológica é maior que qualquer estudioso do mundo, pois ele já leu alguns trechos do Wikipédia. Ele tem uma maneira própria de falar sobre política, teologia, filosofia qualquer assunto. Na verdade, Smirnoff  só fala do que lhe interessa. Ele não se preocupa com o pensamento dos outros. Academia? O pastor fez teologia?  Smirnoff  não se preocupa com isso, pois ele vive teologia. O pastor estudou nos livros, Smirnoff estuda na vida. Aliás, Smirnoff  é o mais espiritual de todos os crentes, pois ele vive do jeito dele que é o jeito correto.  
Esse negócio de história e de crentes perseguidos não interesse a ele, pois ele vive a vida da sua forma. Importa ser ele mesmo. O outro não interessa a Smirnoff. As pessoas só interessam quando há um interesse. Compromisso? Engajamento? Serviço? Que é isso? Para Smirnoff, não se deve mergulhar fundo em nada, pois isso é fanatismo. A frase preferida dele é: você não deve ligar para as opiniões dos outros, pois “o mundo é você quem faz”.
Smirnoff  não precisa ir ao culto; ele pode assisti-lo na internet. Quando ele lê algum livro, é para reforçar o seu jeito de ser. Mas, o que mexe com Smirnoff são os filmes, porquanto “têm mais explosão”.
Se Smirnoff  pudesse encontrar pessoalmente com Paulo, ele certamente diria: Paulo, deixa de ser tão rígido consigo mesmo e de ser tão tradicional (At 2.42). Esse negócio de tradição de apóstolos e doutrina que foi entregue (Rm 6.17) é coisa do passado, estamos na era do “zap zap”. Para esse alegre crente, não é necessário sofrer pela cruz, pois isso é coisa do passado. Ele certamente estaria no mesmo pensamento de Pedro quando disse a Jesus: “Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitado no terceiro dia. E Pedro, chamando-o à parte, começou a reprová-lo, dizendo: Tem compaixão de ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá. Mas Jesus, voltando-se, disse a Pedro: Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens” (Mt 16-21-23).
O crente Smirnoff  nunca foi intenso. Nada ele faz com intensidade. Para não sermos injustos consigo, temos que confessar que ele é intenso em si mesmo. Ele se alegra em ser quem ele é. Esse negócio de imagem de Cristo em nós (Rm 8.29) é coisa ultrapassada. Ele crê que precisamos ser nós mesmos. Para Smirnoff, várias gerações passaram: geração Coca-Cola, com a ideia de que a vida é essa mesma: é isso aí; a geração Pepsi-cola, com a ideia de que qualquer coisa está boa, pode ser; e agora é a vez dele, geração Smirnoff, seja você mesmo.  
Queridos, a história do crente Paulo foi retirada da Bíblia sagrada. O crente Smirnoff foi retirado de uma propaganda que anda circulando na TV e redes sociais e banners. A propaganda é de uma bebida chamada Smirnoff. A mensagem da propaganda é permeada de vários temas importantes da vida. Entretanto, segundo a propaganda, essa geração não se preocupa: “dizem por aí que essa geração não se preocupa com nada”. Ao final da propaganda, após dizer que essa geração desconsidera a opinião do mundo, dos outros etc., ela termina com a seguinte frase: “só me importa ser eu mesmo”. Em um dos banners diz: “aprendeu mais história na viagem do que na faculdade”. O término das propagandas fala: “um brinde à vida real”.
Antes de tudo, devemos aplaudir a criatividade da equipe de marketing. Certamente, cativou várias pessoas que se enquadram na ideia: meu mundo sou eu. A ideia de “importa somente eu e o outro só me importa se for importante para mim” pode parecer uma filosofia moderna, descolada, geração hi-tech, geração pós-moderna. Contudo, é o que chamamos de mais do mesmo. É uma geração ególatra, hedonista prática, onde a própria existência é única possível e é sempre a mais desejável. A única opinião possível é a própria. A única realidade possível é a autocriada. A história vivida é melhor que a história contada.
Certa feita, ouvi de um excelente professor que a experiência de uma vida é sempre pobre comparada a experiência de várias vidas lidas em vários livros. Aa pessoa que só tem sua experiência só tem a experiência de uma vida para contar; diversos autores têm histórias de várias vidas para relatar. A objeção a essa afirmação poderia ser: é melhor tomar um milk-shake ou ler sobre ele?
O fato é que uma boa experiência é algo maravilhoso. Por outro lado, existem várias coisas que, pela experiência relatada em livros ou por relatos de outras pessoas, decidimos não passar. Nem tudo é um milk-shake.
O lema do “só me importa ser eu mesmo” não subsiste ao teste prático, pois somos responsáveis pelo que fazemos e pelo que nos cerca. Somos moldados pela nossa relação com o outro e com o mundo.
A tentativa de um pensamento autônomo e inovador é uma luta inglória, pois ninguém pode ser ele mesmo sem o outro e sem a mediação do mundo. A própria marca Smirnoff  diz, em um de seus banners, a seguinte frase: “diz que me ama, mas não mostra o histórico do chat”. Essa frase diz que para que eu ame eu preciso ter transparência e respeito pelo outro. Seria uma frase existencialista clássica. A única regra da filosofia sartriana é o respeito pelo próximo. A cosmovisão desse grupo seria a ideia existencialista ateia de Jean Paul Sartre (1905-1980). Todavia, essa ideia foge da ideia clássica sartriana, pois dizem que essa “geração não se preocupa com nada”. Portanto, não há motivos de se preocupar com o outro e com o que os outros pensam: o importante é ser você mesmo.
Bom, muitas coisas poderiam ser discutidas nesse arrazoado, mas a comparação do crente Paulo com o crente Smirnoff mostra que escolher um jeito de viver muda tudo em nossas vidas. Entretanto, Paulo não escolhe o novo modo de viver. Ele é convertido pelo Senhor para viver do modo que o Senhor quer. Ele é servo; não, Senhor. Ser crente é morrer para a própria vontade. Não podemos ser crentes do nosso modo.
Se você leu até aqui, já deve ter chegado à mesma conclusão do meu filho de sete anos: “pai, Smirnoff  não é crente”. Pois é! 
Você precisa tomar uma grande decisão em sua vida: Ser um crente Paulo, que sabe o que é padecer em nome de Cristo; ou ser como Smirnoff: “não se preocupa com nada”.
Lembre-se que a nossa vida não se limita a este mundo: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1Co 15:19).
O Cristianismo é a religião da autonegação: Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me (Mt 16:24).

Deus nos faça servos!
Rev. Ricardo Rios Melo


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O crente não praticante

O crente não praticante
Rev. Ricardo Rios Melo



É muito comum você perguntar a uma pessoa sobre sua religião e, caso ela não tenha outra religião, ela responde: sou católico não praticante. Isso significa que ela foi batizada em sua infância no catolicismo Romano, mas não frequenta a igreja e, muito provavelmente, não prática os dogmas católicos em sua vida.
Essas pessoas, invariavelmente, vão à igreja apenas em eventos como batismos, casamentos e velórios. Possuem crenças místicas justiçáveis dentro do seu pensamento e são sempre otimistas e condescendentes com os seus erros disparando grandes frases: “Deus é pai não, padrasto”; “Deus é grande”. São verdades ditas no vácuo.
Desastrosamente, nas últimas décadas, tem surgido uma nova modalidade: os crentes não praticantes. Não estou falando diretamente do movimento dos “desigrejados”, pois esses formam uma igreja sem igreja e não são o foco desse arrazoado.  Eu me refiro aos que dizem pertencer a uma igreja, contudo não são frequentadores dela. Eles são os crentes não praticantes. Eles aparecem, como diz o adágio popular, “de caju em caju”.  Quando indagados, dizem que estão firmes em casa assistindo programas evangélicos. É o famoso crente Geninho[1]: temos que adivinhar e procurar muito até o fim para o acharmos. Ele se mistura facilmente com as cores do mundo.
Esse grupo, quando ora, é na hora do almoço e, quando a coisa aperta, em situações extremas de doenças ou dificuldades financeiras. São místicos também e sempre acham que no final tudo dará certo: afinal de contas, dizem eles, “Deus é grande”.  Eles não leem a Bíblia e confundem Sofonias com sinfonia (se você não entendeu a piada, precisa ler a Bíblia). 
Alguns desses crentes nominais, quando vão à igreja, escolhem apenas um turno para fazer sua fezinha ou sua parte: se acordam sempre cedo, escolhem ir à igreja pela manhã, pois não será nenhum sacrifício – já estão acordados mesmo! O período da noite eles deixam para seus afazeres ou sua diversão. Não pretendem sacrificar seu domingo indo DUAS vezes ao culto.  Isso é fanatismo, diria um crente nominal ou não praticante. São adeptos da lei do menor esforço quando se refere à igreja.
Se não vão pela manhã, pois estão dormindo, descansando da farra do sábado ou da semana puxada, irão à noite, pois querem uma programação mais leve, desde que o culto termine cedo. Aliás, geralmente, chegam bastante atrasados (isso infelizmente não é uma característica somente desse grupo).
É claro que há pessoas que, por motivo de força maior: doença, idade, casado com não crentes, trabalhos essenciais como médicos plantonistas da área de saúde de modo geral, não podem ir aos dois turnos. Entretanto, para o crente não praticante, a prioridade ou o serviço emergencial é ele mesmo. Sempre tem algo que ele deixou inadiável para o domingo.
Esses crentes nominais estão sempre cansados e ocupados para a obra do Senhor. Não procurem eles, pois sempre estarão ocupados. Alguns desses viajantes da fé estão sempre de férias – férias da igreja. Alguns até são dizimistas fiéis, pois conferem ao dízimo um poder místico: “quando eu dou o dízimo, sempre eu ganho mais no mês”.
Esses crentes ficam irritados quando descobrem que, há muito, seus nomes foram excluídos do rol de membros, pois o conselho fez o seu dever de casa e atualizou o rol.  Eles bradam logo: “domingo passado eu estava aqui” – só esqueceram de dizer o ano. 
Há dentro desse grupo aqueles que são crentes nominais, todavia querem ser “desigrejados” ou pior ainda: eles são a igreja.  São aqueles queridos amigos que pregam, até leem a Bíblia, oram, fazem apelo a si mesmos, mas não veem nenhum sentido em congregar como a Bíblia fala. Em uma linguagem do futebol: “cobram o escanteio e correm para área para cabecearem a bola”.  Esses são os críticos de plantão: o pastor não presta, o sermão não presta, a igreja não presta, ninguém presta, ou melhor, só ele presta. Ele é a autoridade para julgar todos os demais. Esse crente nominal é diferente. Ele é perigoso! Pretende difundir sua ideologia “igreja” a outrem, mas sem responsabilidade com o outro. Eles se julgam maduros e superespirituais. Estão sempre prontos para apontar os problemas da igreja e justificar suas ausências: “todos os domingos o pastor prega a Bíblia”,  “essa é a interpretação dele”, “para quê ir a igreja se eu penso diferente”, “a igreja é ideologia dos homens, Deus não instituiu igreja” , “o importante é o amor ao próximo”.
Nada está bom para o crente nominal (não praticante). Ele afunda uma igreja em segundos e funda sua própria igreja e regras: “eu não preciso disso para ser crente”; “eu penso que a igreja dever ser...”.
O problema é que Jesus veio para salvar a igreja. Os “desigrejados” e os crentes virtuais terão que responder ao Noivo o motivo de não gostarem do seu nome: igreja (noiva). Terão que responder o motivo de não concordarem com as regras que o Noivo lhes impôs inspirando as cartas pastorais e, inclusive, mostrando princípios litúrgicos. Por qual motivo o Senhor daria princípios litúrgicos comunitários se não existisse igreja?
Os crentes não praticantes (nominais), foco desse arrazoado, terão que enfrentar o noivo e responder o motivo de não vigiarem e não esperarem o noivo com a lâmpada acesa: “Então, o reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram a encontrar-se com o noivo.  Cinco dentre elas eram néscias, e cinco, prudentes.  As néscias, ao tomarem as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo;  no entanto, as prudentes, além das lâmpadas, levaram azeite nas vasilhas.  E, tardando o noivo, foram todas tomadas de sono e adormeceram.  Mas, à meia-noite, ouviu-se um grito: Eis o noivo! Saí ao seu encontro!  Então, se levantaram todas aquelas virgens e prepararam as suas lâmpadas.  E as néscias disseram às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas estão-se apagando. Mas as prudentes responderam: Não, para que não nos falte a nós e a vós outras! Ide, antes, aos que o vendem e comprai-o.  E, saindo elas para comprar, chegou o noivo, e as que estavam apercebidas entraram com ele para as bodas; e fechou-se a porta.  Mais tarde, chegaram as virgens néscias, clamando: Senhor, senhor, abre-nos a porta! Mas ele respondeu: Em verdade vos digo que não vos conheço.  Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora “ (Mt 25.1-13).
Nas Escrituras, a palavra igreja está associada a grupo, assembleia, corpo, reunião de pessoas. O apostolo Paulo diz que nós somos o corpo e Cristo é a cabeça: 1 Co 12,27; Ef 3.6;  Ef 4.12,16; Cl 1.18; 2. 19. O Novo Testamento tem no mínimo 73 citações diretas e 74 indiretas com o nome igreja. Como não existe exército de um homem só, não existe igreja de um homem só.  Eu não sou a igreja. Você não é a igreja, mas nós juntos somos a igreja. Igreja implica conjunto e pluralidade. A Bíblia afirma categoricamente que foi pela igreja que Cristo, vero homem e vero Deus, morreu: “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue 20:28.
Muitos confundem igreja com prédio. É verdade que a igreja não está vinculada a um prédio ou edifício de tijolo. Nós somos os tijolinhos de Cristo. Separados somos tijolos, juntos somos o edifício que Deus está formando sobre o fundamento, a Rocha que é Cristo. Parafraseando uma ilustração que ouvi de Joel Beeke, a igreja assemelha-se a uma grande construção: há pregos soltos, entulho, vigas, paredes sem reboco, escadas, andaimes, pouca coisa leva a acreditar que aquela obra empoeirada será um lindo edifício. Contudo, mesmo no meio de tudo isso, Cristo está edificando sua igreja. O noivo vê sua noiva linda e majestosa, imaculada, sem rugas: “para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeitoEf 5:27.
É interessante notar que muitos dão o argumento de que, antigamente, os irmãos se reuniam de casa em casa e que, portanto, agora não precisam de igreja. Isso é uma bobagem sem tamanho, pois as igrejas que estavam nas casas eram igrejas estabelecidas com liderança: presbíteros e diáconos. A ênfase não é no local, mas em como essa igreja era instituída.  O espaço é pequeno para mostrar, por exemplo, as cartas dirigidas às igrejas. É só ler as cartas paulinas. Atos dos apóstolos.  Leiam também Apocalipse e vejam as cartas às igrejas. 
Destituir a importância da organização igreja no sentido do Antigo ou Novo Testamento é destruir os princípios e propósitos divinos. Podemos discutir formas de governo, liturgias, local etc. Podemos não concordar, criticar e até condenar os desmandos e escândalos que acontecem em vários arraiais cristãos. Contudo, não podemos “desigrejar” a Bíblia e muito menos fazer da crença uma mera ideologia ou museu. Os “desigrejados” e os nominais terão que responder a O Cabeça e  a O Noivo que é Cristo.
O maior problema do crente nominal é que o seu nome poderá não constar no Livro da vida, pois o Senhor é claro: Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus (Mt 7.21).
O entendimento equivocado da demora do Senhor em voltar gera nos desavisados a falsa sensação de que o Senhor não voltará mais. Portanto, há uma letargia assolando a igreja.
Sempre é bom lembrar as palavras do Senhor por intermédio do apostolo Pedro: Há, todavia, uma coisa, amados, que não deveis esquecer: que, para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia. Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” ( 2. Pe 3, 9,10).
Querido leitor, tenha cuidado, pois se nós fossemos abençoados pelo compromisso que temos com o Senhor, ou se o Senhor estivesse presente em nossa vida com a frequência que O temos buscado, estaríamos perdidos!
Essa crise dos crentes nominais e dos “desigrejados” já era um problema na era apostólica, não é à toa que o Espírito inspirou o autor aos Hebreus ao dizer: Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima Hb 10:25

Os crentes não praticantes são mestres na prática da desculpa. Para esses o Senhor adverte: “e serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos. Ora, ouvindo tais palavras, um dos que estavam com ele à mesa, disse-lhe: Bem-aventurado aquele que comer pão no reino de Deus. Ele, porém, respondeu: Certo homem deu uma grande ceia e convidou muitos. À hora da ceia, enviou o seu servo para avisar aos convidados: Vinde, porque tudo já está preparado. Não obstante, todos, à uma, começaram a escusar-se. Disse o primeiro: Comprei um campo e preciso ir vê-lo; rogo-te que me tenhas por escusado. Outro disse: Comprei cinco juntas de bois e vou experimentá-las; rogo-te que me tenhas por escusado. E outro disse: Casei-me e, por isso, não posso ir. Voltando o servo, tudo contou ao seu senhor. Então, irado, o dono da casa disse ao seu servo: Sai depressa para as ruas e becos da cidade e traze para aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. Depois, lhe disse o servo: Senhor, feito está como mandaste, e ainda há lugar. Respondeu-lhe o senhor: Sai pelos caminhos e atalhos e obriga a todos a entrar, para que fique cheia a minha casa. Porque vos declaro que nenhum daqueles homens que foram convidados provará a minha ceia”  (Lc 14. 14-24).
Alguém poderia objetar, “então você quer dizer que, para uma pessoa ser salva, ela precisa estar na igreja? Exato! Isso não significa denominação. Significa que você precisa pertencer ao corpo de Cristo. É preciso permanecer na doutrina dos apóstolos e na comunhão dos santos: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações (At 2:42). Você precisa pertencer à igreja visível, pois a igreja invisível, aquela que somente o Senhor conhece, ele é manifestada na igreja visível. Mesmo que dentro dessa igreja visível haja joio, o Senhor recolherá seu trigo de cada igreja visível e cortará o joio: “Outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo;  mas, enquanto os homens dormiam, veio o inimigo dele, semeou o joio no meio do trigo e retirou-se.  E, quando a erva cresceu e produziu fruto, apareceu também o joio. Então, vindo os servos do dono da casa, lhe disseram: Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem, pois, o joio?  Ele, porém, lhes respondeu: Um inimigo fez isso. Mas os servos lhe perguntaram: Queres que vamos e arranquemos o joio?  Não! Replicou ele, para que, ao separar o joio, não arranqueis também com ele o trigo. Deixai-os crescer juntos até à colheita, e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: ajuntai primeiro o joio, atai-o em feixes para ser queimado; mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro(Mt 13. 24-30).
Termino com a nossa Confissão de Fé de Westminster:
XXV.1- A Igreja Católica ou Universal, que é invisível, consta do número total dos eleitos que já foram, dos que agora são e dos que ainda serão reunidos em um só corpo sob Cristo, seu cabeça; ela é a esposa, o corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todas as coisas. Ref.: Ef 1. 10,22,23; Cl 1. 18; Ef. 5. 23,27,32.  
XXV.2- A Igreja visível, que também é católica ou universal sob o Evangelho (não sendo restrita a uma nação, como antes sob a Lei) consta de todos aqueles que pelo mundo inteiro professam a verdadeira religião 1, juntamente com seus filhos 2; é o reino do Senhor Jesus 3, a casa e família de Deus 4, fora da qual não há possibilidade ordinária de salvação 5. Ref.: 1- I Co 1.2; I Co 12. 12,13; Rm 15. 9-12. 2- Gn 17.7; Gl 3. 7,9,14 cf Rm 4; At 2.39; I Co 7. 14; Mc 10. 13-16. 3- Mt 13. 47; Cl 1. 13; Is 9. 7. 4- Ef 2. 19. 5- Mt 28.19; At 2.38; I Co 12.13; Mt 26. 26-28.
Deus converte os seus!
Rev. Ricardo Rios Melo



[1] Personagem de um antigo desenho animado chamado She-Ha onde ao final do episódio as crianças tinham de encontrá-lo no meio do desenho. O detalhe era que o colorido dele parecia com o cenário, ou seja, era muito difícil encontrá-lo. 

sábado, 2 de agosto de 2014

Identidade

Identidade
Rev. Ricardo Rios Melo


Quando alguém pede a você que apresente sua identidade, imediatamente você entrega seu Registro de Identidade (RG) que contém o nome do pai, da mãe, data de nascimento, nome completo e número do registro, foto, naturalidade etc. Esse documento assevera que você não é um indigente. Garante passagem livre em determinados ambientes. Entretanto, esse documento não diz quem você é de fato. É um documento que aponta para uma faceta sua como persona civil: cidadão. Não diz o que você sente ou o que pensa. Mas, sem ela, você é um indigente.
As questões psicológicas que envolvem uma identidade são muito profundas e intricadas em um emaranhado psíquico e pessoal, individual, subjetivo: próprio do Sujeito. Vejamos a luta de pessoas para obterem um registro de nascimento ou o reconhecimento de seus pais. No Brasil, há uma evolução nesse processo com a gratuidade do exame genético de paternidade.  Alguns dos pais que foram obrigados a reconhecerem seus filhos genéticos, jamais serão pais legítimos emocionalmente. Contudo, isso não tem impedido que os filhos busquem desatar seus “nós” psíquicos com esse reconhecimento.
As empresas também possuem identidade visual. Elas querem ser reconhecidas pelos seus símbolos. Mas, dentro desse símbolo, existe um significante: um sentido dado ao significado do símbolo, a realidade à qual o símbolo aponta; uma marca não é marca se não transmitir um conteúdo, uma mensagem, um valor. É o caso das marcas de luxo: “Enquanto os produtos de consumo corrente correspondem a benefícios de tipo funcional, as marcas de luxo remetem a benefícios simbólicos e, cada vez mais, a benefícios ditos ‘experienciais’, isto é, que implicam, no cliente, uma busca de experiências de emoções fortes excepcionais. A imagem de uma marca corresponde, então, ao conjunto das associações estocadas na memória do consumidor” (LIPOVETSKY, Gilles, O Luxo eterno: da idade do sagrado ao tempo das marcas, São Paulo: Companhia das Letras , 2005, p. 136).
A identidade poderia nos remeter à ideia de pertencimento, contudo, segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, “(...) ‘pertencimento’ e a ‘identidade’ não têm a solidez de uma rocha, não são garantidos para toda vida, são bastante negociáveis, e de que as decisões que o próprio indivíduo toma, os caminhos que percorre, a maneira como age - e a determinação de se manter firme a tudo isso – são fatores cruciais tanto para o ‘pertencimento’ quanto para a ‘identidade’.” (BAUMAN, Zygmunt, Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi, Rio de janeiro: Jorge Zahar ed., 2005, p. 17).
As igrejas, por incrível que possa parecer, possuem também uma identidade, um registro com data, nacionalidade. Com significado e significante. Contém a ideia de pertencimento, mas, como Bauman fala, é preciso uma determinação firme a tudo isso.
A Igreja Presbiteriana do Brasil nasceu em 12 de agosto de 1859. Ela tem uma herança genética reformada. Oriunda dos reformados que são caracterizados pelo sistema calvinista de enxergar a realidade e a doutrina de modo geral. Nosso regime também nos caracterizar: governo de presbíteros.  No dia 12 desse ano (2014), a igreja fará 155 anos de história. Existe um DNA da igreja. Pode-se levantar sua paternidade.  Entretanto, essa paternidade não é como o caso brasileiro, onde muitos pais não querem reconhecer seus filhos e são obrigados a reconhecer judicialmente. Na paternidade reformada brasileira, parece existir aquilo que os psicanalistas chamam de caso histérico: destituição de autoridade. Em outras palavras, são os filhos que não querem se reconhecer como filhos no sentido da obediência ou da autoridade. É a destituição das autoridades.  Muitos estão rebeldes a essa filiação. Não reconhecem os marcos históricos e a sua identidade e, muito menos, seu pertencimento. Não há uma determinação firme em permanecer filho.
Há uma tentativa geral em destituir o mestre. Assim como na sociedade há um esvaziamento da autoridade e da origem, muitas igrejas estão entrando nessa histeria teológica.
Recentemente, uma tentativa de alterar um nome de determinada igreja gerou tamanha polêmica que precisou ser discutido o assunto. O que chama a atenção não é a mudança de nome em si, mas a tentativa de mudança de identidade. Os desavisados pensam que só é uma questão de mudança de nome. É como se um filho entrasse no cartório por achar seu nome feio, alegando sofrer um sofrimento psíquico e exposição a situações vexatórias. O nome tem significado e significante. Ele não é vazio. O novo nome escolhido pelo filho também contém preenchimento simbólico e existencial. Portanto, mudar o nome requer conteúdo subjetivo que transpõe a mera visão superficial.
Mudar um símbolo, uma figura, desenho, aquilo que muitos chamam de logomarca, não é algo impensado, pois requer estudo de representação simbólica: a que esse símbolo remete. Quando se escolhe bandeiras, escudos, marcas de empresa, o grupo pretende ser reconhecido por esses símbolos.
A IPB (Igreja Presbiteriana do Brasil) ao colocar a pomba na sarça, há cerca de 15 anos, pretendeu, de alguma forma, passar uma mensagem filosófica. Muitos não sabem e nem querem saber qual era esse significado, o fato é que, desde então, a igreja tem enfrentado crises de identidade. Estamos lutando para nos parecermos mais com os nossos pais e sermos reconhecidos como reformados. A retirada da pomba, independentemente das razões teológicas (claro que essas devem ser as razões principais), marca um retorno dos filhos querendo o reconhecimento do pai.
No “império das marcas”, não podemos ser ingênuos o bastante para acharmos que mudanças visuais são apenas visuais, elas vão além, são profundas, emaranhadas e intricadas subjetivamente, cheias de sentido.
A pomba voou. Contudo, com ela é preciso voar seus significantes. É preciso voltarmos aos nossos pais reformados e lutarmos pela nossa identidade reformada. Somos Presbiterianos. Isso implica genética reformada, história familiar reformada, princípios reformados passados de geração em geração. A nossa carteira de identidade tem foto e nossos documentos de Fé elaborados em Westminster de 1643 a 1649: Confissão de Fé, Catecismo Maior e Breve Catecismo, preenchem nosso significante. Não devemos remover os marcos antigos que nossos pais nos legaram. Há valores.  Há muito mais do que isso, uma sólida teologia que representa o que nós cremos. Um credo que identifica quem nós somos.  Eu tenho orgulho de meus pais e quero ser ligado a eles pelo meu nome e sobrenome. Quero que minha foto se assemelhe às belas feições deles.
Irmãos, tenhamos alegria em sermos quem somos!  Devemos lembrar dos grandes feitos do Senhor aos nossos pais (Sl 44).
“A identidade”, como bem frisou Bauman, “sejamos claros sobre isso – é um ‘conceito altamente contestado’. Sempre que ouvir essa palavra, pode-se estar certo que está havendo uma batalha. O campo da batalha é o lar natural da identidade. Ela só vem à luz no tumulto da batalha, e dorme e silencia no momento em que desaparecem os ruídos da refrega.  (...) a identidade é uma luta simultânea contra a dissolução e a fragmentação; uma intenção de devorar e ao mesmo tempo uma recusa a ser devorado...” (BAUMAN, Zygmunt, Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi, Rio de janeiro: Jorge Zahar ed., 2005, p. 83,84).
Lutemos pela nossa paternidade. Busquemos resolutamente permanecer fiéis ao nosso pertencimento e à nossa identidade reformada!


Não removas os marcos antigos que puseram teus pais” (Pv 22:28).

Deus nos abençoe!
Rev. Ricardo Rios Melo












  

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Os escolhedores de cabeça


Os escolhedores de cabeça

Por Rev. Ricardo Rios Melo

 

Em minha infância, eu me lembro de ter assistido filmes e desenhos do Scooby-Doo onde uma tribo assustadora e grotesca tinha o poder de encolher cabeças. Estudos atuais já detectaram esse método e descobriram o segredo dessa tribo:

 

Os Encolhedores de Cabeça eram assim conhecidos justamente por causa prática do ritual e do conhecimento da técnica [para encolher as cabeças], mantida em segredo por incontáveis gerações; eles pertenciam a uma tribo denominada Shuar ou Shuaras [e suavam; ô, como suavam para encolher aquelas cabeças!]. Os Suharas são um grupo étnico [biótipo, cultura, dialeto próprios] que habita uma região da floresta fronteiriça entre o Peru e o Equador.
O ritual era praticado como uma forma de justiça aplicada aos inimigos. Os nativos acreditavam que aquele processo era necessário para anular o poder do Espírito daqueles mortos de retornarem em busca de vingança. Ou seja, era uma forma de evitar que o inimigo morto virasse uma assombração.

Gibbon descreve o processo: Primeiro, a parte de trás da cabeça tem de ser aberta. Toda a pele é retirada do crânio juntamente com a cabeleira [portanto, é mais que um escalpelamento, é escalpela-descaramento, se assim o leitor permitir a esse tradutor definir, já que arrancam a cara do sujeito também].

Toma-se muito cuidado para não danificar a peça, especialmente o rosto. O crânio é reservado, [reserve... como se diz nas receitas culinárias] e a carne fresca, descartada. Depois, coloca-se a pele daquele rosto para ferver durante meia hora em mistura de água e tanino, uma substância que tem a propriedade de curtir as peles. Se ferver por mais tempo, os cabelos podem cair.

Essa máscara de defunto é colocada para secar ao sol devidamente recheada com pedras esféricas, para que não se deforme. Depois de seca, é virada ao avesso. O procedimento é repetido durante seis dias até que o material fica com apenas um quarto [25%] de seus tamanho original. Então, os olhos são costurados, para que o Espírito não possa enxergar. Pinos de madeira são transpassados nos lábios, para que o Espírito não possa falar, assim não poderá clamar por vingança. Os pinos também são fixados nas orelhas... para que o defunto não fique escutando conversas.

Ao fim de todo o processo, uma vez que a está perfeitamente cabeça encolhida, recheada, reconstituída em miniatura, é o momento da festa de celebração, a Tzantza.. (http://www.sofadasala.com/noticia/encolhedoresdecabecas.htm - acesso 20/06/2014).

 

Podemos perceber pelo relato que não tem nada de poder místico. É apenas uma técnica muito bem elaborada para assustar os oponentes. Portanto, não precisamos ter medo de que alguém com um cajado ou com palavras mágicas encolha as nossas cabeças. Eles precisam matar a pessoa para que isso aconteça por intermédio de processo químico e, digamos, cirúrgico.

Todavia, quando olhamos a sociedade atual por um ângulo analítico, parece que estamos passando pelo ritual da tribo Shuar: nossos crânios continuam do mesmo tamanho, mas o nosso cérebro tem perdido a capacidade de elaborar, discutir, analisar, perceber o mundo que nos cerca.

Existe uma tribo escolhedora de cabeça que não usa técnicas cirúrgicas ou mágicas, mas estão conseguindo encolher a capacidade do homem de pensar. Não entrarei no campo ideológico, no sentido de vertentes ideológicas, pois é um assunto grande, polêmico e fora da esfera desse arrazoado. A questão é que os escolhedores não poupam ninguém. Há um niilismo ignorante, ignorante porque ignora a conceituação filosófica da negação do sentido. É um não conhecer não derivado da postulação de que não se pode conhecer nada em essência. É um não conhecer por não conhecer. Por não estar nem aí. Por não está conectado com o sentido do sujeito. Não concordo com o niilismo. Entretanto, este é um movimento coerente com o que prega, pois tenta ser uma filosofia agnóstica negando o conhecimento essencial das coisas. Um dos menores problemas para essa filosofia enfrentar é o simples fato de que para conhecer que eu não posso conhecer eu preciso conhecer que não posso conhecer. Os niilistas não concordarão com essa afirmação, mas eu posso alegar que não posso conhecer o que não posso conhecer.

Talvez o problema resida na falta de sentido para o sujeito em buscar qualquer sentido.  Na Era do Vazio, como diria Gilles Lipovetsky ou na Sociedade Líquida, como bem frisou Zygmunt Bauman, a efemeridade é a única constância. A liquidez é a rigidez desse novo homem.

O homem pós-moderno é muito ocupado, cheio, para se dar conta de seu vazio. Na era das redes sociais onde todo mundo está conectado, as relações são superficiais e sem conexão com a amplitude da realidade. Somos íntimos dos desconhecidos e distantes de quem conhecemos de fato.

Há um hedonismo não filosófico também, pois apesar de não elevarem Epicuro (341 a.C) à estatura de um deus, vivem a vida evitando o desprazer. Entretanto, o epicurismo é filosófico e pensante, diferentemente dos “epicuristas” contemporâneos que evitam o desprazer de pensar. Mesmo discordando do hedonismo, não encontramos no hedonismo atual uma apreensão conceitual. A regra é: não pensar! Não se canse! Não queimem seus poucos neurônios!

   Quando somos crianças, temos uma sensação de que, ao fecharmos os olhos, os monstros sumirão da nossa frente. A sociedade atual é infantil e fecha os olhos à realidade. A equação é simples: não penso, logo, não existe. A cabeça encolhida não é detectada pelo espelho de Pollyana que precisa olhar tudo como positivo para não atentar para o fato de sua pobreza e de que seu pai tinha morrido (Pollyanna, escrito por Eleanor H. Porter em 1913).

O lema é: não pense em politica, filosofia, sociologia, história, psicologia, saúde, doença, morte e vida, apenas viva. Respire! Isso me faz lembrar uma frase bastante emblemática do racionalista Descartes, onde ele constata que é a razão que nos diferencia dos animais: “(...) é a única coisa que nos torna homens e nos diferencia dos animais, acredito que existe totalmente em cada um (...). (René Descartes, Os Pensadores, São Paulo: Nova Cultura, 1999, p. 36). Se ele pudesse, revolver-se-ia do túmulo ao olhar para a contemporaneidade.

Dentro da igreja, a tribo Shuar já fez suas vítimas: crentes que não pensam. Esqueceram-se de levar a cabeça para o culto ou já estão com elas encolhidas. Outros, sem saber, seguem a ideia reducionista de Tertuliano (160 – 220 AD) perguntando:  “o que tem a ver Atenas com Jerusalém?”.  Não há um pensamento crítico sobre a mensagem e nem sobre a vida. São os espirituais. Acreditam que ao estudar história, filosofia, sociologia, teologia, ouvir um sermão construído exegeticamente respeitando cultura, língua, história, geografia, ou qualquer outra coisa que não seja a Bíblia apenas, estariam negando a fé.   

Essas vítimas dos encolhedores de cabeça não percebem e nem podem perceber que essa cosmovisão não é deles. Ao olhar para um simples texto da Bíblia, você carrega todos esses valores que eles negam enxergar.

O caleidoscópio da vida não permite a dicotomia grega do homem: a matéria como má e espirito como sendo bom.  

Certa feita, eu convidei o grande historiador e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Dr. Wilson Santana, para falar à igreja sobre sua tese defendida no doutoramento em Ciência da Religião, na PUC/SP , O pensamento social, o Brasil e a religião, que aliás,  é fantástica e merece um livro.  Após terminar a excelente palestra, um irmão piedoso fez a seguinte pergunta para mim: o que isso tem a ver com a igreja, pastor? 

Bom, eu fiquei chocado com a pergunta. Mas, ao longo do tempo, venho tentando mostrar que o homem é um ser total e que conhecer a cultura de modo geral com todas suas nuances é de suma importância para nos comunicarmos com esse mundo vazio de sentido.

A tribo Shuar  contemporânea em nada se assemelha a tribo original, mas está modernizada e altamente tecnológica. Ela tem encolhido indistintamente o cérebro de muitas pessoas, mas espero que você não tenha sido atingido por sua “magia”.  Afinal de contas, como diria o saudoso John Stott, Crer é Também Pensar.

 

Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.

E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” ( Rm 12:1,2).

 

 

 

Deus proteja sua cabeça!

Rev. Ricardo Rios Melo